Blue Zones – A Sardenha nos dias de hoje | Entrevistas

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Blue Zones – A Sardenha nos dias de hoje

30/11/2021 | Sílvia Triboni

Entrevista com o cofundador Dr. Gianni Pes Fonte: Silvia Triboni Entrevista com o cofundador Dr. Gianni Pes Fonte: Silvia Triboni

O que são as Blue Zones? São Aquelas 5 regiões do mundo em que as pessoas chegam aos 100 anos, ou mais, com muita saúde! Já sabia? Caso não, leia este artigo que apresenta uma síntese sobre estas famosas localidades onde os seus habitantes se destacam pela longevidade ativa e feliz.

Sabe, eu interesso-me por tudo o que nos possa inspirar à construção e manutenção de nosso protagonismo como pessoas ativas independentemente da idade, razão pela qual decidi estudar as Blue Zones. Iniciei a Missão Centenarian que tem por objetivo explorar as famosas zonas azuis, tendo começado o estudo pela que foi a primeira região declarada de Blue Zone – a Sardenha, em Itália, onde estive em outubro deste ano.

Imagem: Unsplash

Blue Zones: O que são e como surgiram?

Blue Zones (zonas azuis) é um termo não científico dado as regiões geográficas que apresentam habitantes que atingem idades mais elevadas em comparação ao resto do mundo.

São pessoas que vivem com mais de 90 e 100 anos.
O termo aparece pela primeira no artigo do jornalista Dan Buettner, de novembro de 2005, da revista National Geographic, "The Secrets of a Long Life".

Na verdade, o conceito das Blue Zones surgiu em 2004, na ilha da Sardenha, a partir do trabalho demográfico feito pelos pesquisadores Gianni Pes e Michel Poulain, e outros cientistas, descrito no jornal Experimental Gerontology, que identificou a província de Nuoro, em Ogliastra na Sardegna, como uma região de excepcional concentração de pessoas centenárias.

A equipa de pesquisa investigou uma peculiaridade genética de seus habitantes: o marcador M26. Constataram que este gene é ligado à longevidade excepcional dos residentes daquela ilha, um gene que permaneceu imutável nos habitantes daquele lugar. Entretanto, descobriram que não só a genética dos sardos era responsável pelo alto índice de longevidade, como também o estilo de vida saudável, e muito tradicional, era um fator preponderante na manutenção da saúde integral e dinamismo daquele povo.

Posteriormente outras 4 regiões foram investigadas pelos citados cientistas, e classificadas como Blue Zones.

  • Icaria (Grécia);
  • Ogliastra, Sardenha (Itália);
  • Okinawa (Japão);
  • Península de Nicoya (Costa Rica)
  • Loma Linda, Califórnia (EUA).

 

Blue Zones - Sardenha nos dias de hoje – Entrevista com o cofundador Dr. Gianni Pes

Deste modo, da minha própria pesquisa, fui para Sardegna saber mais sobre o modo d vida dos centenários sardos. Tive o privilégio de entrevistar um dos fundadores das Blue Zones, o Professor Gianni Pes, que gentilmente me recebeu em Cagliari, capital da Sardenha, onde pudemos conversar sobre a vida atual daquela Blue Zone e outros tópicos interessantes, como poderá constatar abaixo.

Giovanni Pes é médico e pesquisador sénior do Departamento de Medicina Clínica e Experimental da Universidade de Sassari, Sardenha, Itália. É cofundador das Blue Zones, sendo também responsável pela identificação e certificação de outras zonas azuis ao redor do mundo. Dr. Pes é expert em nutrição, dietética, diabetologia e geriatria e continua a concentrar-se em fatores nutricionais e de estilo de vida associados a uma vida longa.

Silvia TriboniProfessor Gianni muito obrigado por este privilégio de poder entrevistá-lo e poder saber um pouco sobre a sua experiência, sobre o seu trabalho associado à longevidade dos habitantes da Sardenha, e sobre a criação das Blue Zones. Agradeço e peço que nos conte um pouco de sua trajetória.

Professor Gianni Pes - Muito obrigado, eu sou médico e trabalho na Universidade de Sassari, na Sardenha. Tudo começou há quase 20 anos quando estudava a distribuição da mortalidade entre as pessoas daquela região e descobri que havia uma parte montanhosa central da ilha onde a mortalidade era menor do que em qualquer outro lugar. Pensei que naquela área o número de centenários deveria ser maior do que em outros lugares e, então, eu e o meu colega começamos a visitar uma a uma todas as municipalidades da Sardenha. Foi quando descobrimos muito rapidamente que havia uma concentração de centenários em seis ou sete aldeias no topo das montanhas da ilha.

Demos àquelas regiões o nome de Blue Zone porque nós tínhamos um marcador azul que usávamos todas as vezes que nós descobríamos uma região onde o número de centenários ultrapassava o que tínhamos como referência. Foi quando decidimos escrever os primeiros artigos científicos que adotamos este termo. Na época eu não imaginei que isso se tornaria tão famoso mundialmente.

 

Silvia Triboni - Após quase 20 anos, os descendentes das pessoas pesquisadas que naquela época tinham 60 ou 70 anos de idade, podem estar agora com 90 ou mais anos. Esses descendentes seguem a receita de seus ancestrais para uma vida longa e saudável? Como é a vida dos descendentes daqueles primeiros centenários identificados na pesquisa?

Professor Gianni Pes- Em primeiro lugar, gostaria de dizer que eu tive a sorte de estudar os centenários 20 anos atrás, e hoje em dia para que eu possa comparar de alguma forma, precisaria olhar para o estilo de vida deles, por exemplo, para a dieta alimentar. Acho que existem algumas diferenças entre os centenários de há 20 anos e os centenários de hoje em dia. Não sei se o número de centenários é o mesmo ou se está a subir.

Alguns colegas dizem que provavelmente a zona azul desaparecerá e isto é muito triste para mim. Espero que estejam errados. Mas, de acordo com alguns colegas, existem indicações de que a força da longevidade está a diminuir, e, segundo eles, a razão é o estilo de vida das gerações mais jovens que é diferente do estilo de vida dos antigos centenários. Eu realmente espero que eles estejam errados e a Blue Zone continue a existir.

 

Silvia Triboni - Espero que sim também, Professor! E falando sobre o atual estilo de vida das pessoas mais velhas de hoje em dia, gostaria de saber se eles são influenciados pela tecnologia e uso de redes sociais? Se sim, isto é positivo, ou não, para a longevidade?

Professor Gianni Pes: Eu diria que em geral na Sardenha as pessoas mais idosas são capazes de usar a tecnologia mas de uma forma simples. Muitos deles são capazes de usar o telemóvel e raramente usarão o computador.

Os centenários de há 20 anos atrás viviam num ambiente cultural completamente diferente. Eles eram às vezes pobres pastores, ou fazendeiros, e representavam uma cultura que está praticamente a desaparecer. Não estavam familiarizados com a tecnologia. Agora a situação mudou. Por exemplo, a maioria deles tem um telemóvel e podem ligar para os seus familiares.

 

O turismo em massa nas Blue Zones

Silvia Triboni: As Blues Zones tornaram-se mundialmente famosas, e atrairam um grande número de turistas ansiosos por conhecerem, de perto, a receita da longevidade. O turismo é mau, ou não, para o ecossistema das Blue Zones?

Professor Gianni Pes: Eu realmente penso que é perigoso. Temos testemunhado uma espécie de turismo em massa nas Blue Zones. Infelizmente, e provavelmente, devido ao nosso trabalho muitas pessoas querem visitar todas as Blue Zones.

 

Silvia TriboniProfessor, eu soube que a Blue Zone de Okinawa está sofrendo pelo turismo em massa. É verdade?

Professor Gianni Pes - Entre as Blue Zones, provavelmente em Okinawa o nível de longevidade está a decrescer. Não especificamente por causa do turismo, mas pelo fato de que a geração mais jovem não segue mais a tradição dos mais velhos, especialmente quanto à dieta alimentar. Seguem a dieta ocidental e esquecem a tradicional dieta de Okinawa rica em alimentos do mar e em vegetais. Passaram, provavelmente, de uma dieta baseada em vegetais para uma dieta baseada em carne e gordura.

 

Surgirão novas Blue Zones?

Silvia Triboni: Professor, o senhor já ouviu falar de Veranópolis, uma cidade no Brasil age-friendly e com alto índice de longevidade?

Professor Gianni Pes – Sim. Estou feliz por saber que há cidades que podem se candidatar a serem Blue Zones. Ainda que sejam não oficiais, podem vir a ser desde que possam comprovar cientificamente as condições de longevidade.

Um ponto muito interessante, é que há governos, como o exemplo de Singapura, que decidiu seguir, o que podemos chamar, a filosofia das Blue Zones.

O governo de Singapura, na Ásia, decidiu contar com nosso trabalho sobre as Blue Zones para modificar, ou tentar modificar, o estilo de vida de pessoas idosas, por exemplo ajudando-os a ter um contato mais próximo com a geração mais jovem, criando, por exemplo, casas onde avós e netos vivem juntos. Isso é emocionalmente muito importante. Esse intercâmbio entre as gerações é realmente uma das coisas mais importantes para se envelhecer graciosamente.

Qual é a receita de longevidade dos centenários da Sardenha?

Silvia Triboni: O professor afirma que a genética não é o fator determinante para a especial longevidade do povo da Sardenha. Quais são os fatores mais importantes para este fenómeno? Qual é a receita de vida longa dos centenários da Sardenha?

Professor Gianni Pes: Primeiramente, devo dizer honestamente que não podemos mais seguir a vida dos anciãos sardos porque eles viviam numa era completamente diferente da atual.

Não podemos viver como os pastores sardos, por exemplo. Estamos a viver numa sociedade moderna e rápida. Então, a única coisa que podemos aprender com a zona azul da Sardenha é tentar adotar alguns aspectos específicos das rotinas destes habitantes como, por exemplo, o da atividade física.

Não precisamos ir para as montanhas como os pastores da Sardenha que caminhavam 30 quilómetros por dia. Isso foi algo excepcional mesmo naquele tempo. Nós não podemos fazer isso nas nossas vidas cotidianas, mas podemos tentar aumentar a nossa atividade física e principalmente a atividade física aeróbica em espaços abertos.

Outra coisa que nós podemos tentar modificar é a nossa dieta. Diminuir a quantidade de gorduras e açúcares que comemos todos os dias, tentando comer mais frutas e vegetais como faziam os velhos sardos.

Podemos também tentar melhorar o nosso relacionamento com as outras pessoas e familiares. Em grandes cidades os parentes são negligenciados, não são cuidados, então isso deveria mudar se quisermos viver, não digo necessariamente até os 100 anos, mas, pelo menos, para envelhecermos sem doenças. O que é importante não é viver mais, mas sem doenças. Este é o esforço que devemos fazer.

 

Silvia Triboni - Parar de consumir o leite de vaca e reduzir o consumo da carne, como fazem os longevos da Sardenha, pode ser um bom começo?

Professor Gianni PesReduzir o consumo da carne é importante. Entre os anciãos da Sardenha a carne era consumida apenas uma ou duas vezes por mês.

Eles comiam muito queijo. Não do leite de vaca, mas de ovelha ou cabra. A qualidade do queijo e do leite são completamente diferentes. Isso significa que são proteínas animais que podem ser consumidas especialmente após uma certa idade, porque você sabe que tendemos a perder músculos com a idade, e aumentar o consumo de proteínas de origem animal é bom, mas não necessariamente de carne. Proteínas animais como leite, queijo ou ovos que não são tão perigosos.

 

Há preconceito etário na Sardenha?

Silvia TriboniAtualmente há um grande debate sobre o preconceito etário. Gostaria de saber o seu ponto de vista sobre o etarismo, na Itália, e, especificamente na Sardenha. Há etarismo naquela Blue Zone?

Professor Gianni Pes - Não na Sardenha, mas sim em outras regiões da Itália.

Este tipo de discriminação está a aumentar porque a geração mais jovem as vezes não está disponível para cuidar de pessoas idosas.

O preconceito de idade na Blue Zone é quase ausente pois os longevos ali são muito respeitados pelos jovens. A população tem orgulho de ter estes centenários. Eles representam o símbolo da força de toda a população. Mas eu não posso excluir isso no futuro. Ninguém sabe. Temos que esperar para ver se algo vai realmente mudar.

 

Silvia Triboni - Suas palavras são muito importantes e vou partilhá-las muito entre brasileiros e portugueses, pois precisamos saber que hoje, na Blue Zone da Sardenha o etarismo não existe.

Terminando a nossa conversa, peço-lhe as suas palavras finais para os meus amigos e leitores brasileiros e portugueses, os quais certamente terão muito orgulho de poder aprender com os seus conselhos.

Professor Gianni Pes: Eu diria que o melhor conselho é o seguinte:

Tente amar as pessoas que vivem ao seu lado. É o melhor conselho. Não para ter uma vida longa, mas para envelhecer graciosamente.

Imagem: Silvia Triboni

Assista o video da entrevista realizada em Cagliari, Sardenha, Itália, no dia 16.10.2021:

Silvia Triboni: Muito obrigada Professor Gianni Pes!

 

Sobre a autora: 

Silvia Triboni, 64 anos, Brasileira, Advogada com MBA em Gestão Pública pela FGV, residente em Lisboa, Portugal. Após a sua aposentadoria no Poder Judiciário Federal Brasileiro iniciou uma nova carreira na área do jornalismo, tornando-se Repórter 60+ com foco na temática do envelhecimento e da longevidade ativa. É colunista e correspondente internacional para empresas ligadas aos interesses dos 50+ no Brasil e em Portugal:

É fundadora do projeto Across the Seven Seas, cujo objetivo é divulgar informações relacionadas à inclusão e desenvolvimento do público 50+ ; assuntos sobre a economia da longevidade e benefícios do turismo para o bom envelhecimento.

É Palestrante e Deputy Ambassador na rede internacional Aging2.0. Faz parte da Consultoria Longevida especializada na área do envelhecimento. Ativista contra o idadismo, integra o Movimento #StopIdadismo em Portugal. Empreendedora, levou para a nação lusitana o curso brasileiro Repórter 60+ Portugal, tendo formado repórteres em várias regiões do país.

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