Ajudar a “construir futuros”

A ATACA – Associação de Tutores e Amigos da Criança Africana apoia crianças e famílias africanas com um único objetivo – ajudar a “construir futuros” melhores. Dez anos de experiência mostram que “juntos podemos mudar o mundo”. Fique para ler a entrevista completa de Inês Soares, presidente da ATACA, ao Impulso Positivo.


Impulso Positivo (I.P.): Quem é a ATACA?
Inês Soares (I.S.): A ATACA é uma Organização Não Governamental para o Desenvolvimento (ONGD), associação sem fins lucrativos, que tem sede no Porto e atua há 10 anos em várias regiões de Moçambique.
Os projetos da ATACA têm como objetivo promover o desenvolvimento humano nas regiões do mundo mais desfavorecidas, nomeadamente em África, apoiando crianças e jovens em situação vulnerável, através de parcerias com escolas e centros de dia/acolhimento locais ou do acompanhamento a famílias. Este apoio torna-se possível através do principal projeto da ATACA, o Projeto Tutor à Distância (PTàD), que mobiliza cidadãos portugueses para se tornarem tutores de uma criança ou jovem africano em situação socioeconómica vulnerável.


(I.P.): Como nasceu esta Associação?
(I.S.): A ATACA nasceu em 2006, através de um grupo de alunos de um colégio do Porto que foi fazer voluntariado para Moçambique. Quando regressou a Portugal, este grupo decidiu fundar a ATACA. Desde então, a ATACA tem trabalhado com a Diocese de Quelimane, na Província da Zambézia, parceria que foi inicialmente estabelecida pelos membros fundadores da ATACA, na sequência da sua experiência de trabalho voluntário num centro que está sob a alçada da Diocese – o Centro de Acolhimento de Órfãos Casa Esperança, em Quelimane. Este foi o primeiro local que a Associação começou por apoiar. A Casa Esperança acolhe 35 crianças e jovens com idades entre os 6 e os 18 anos e ao longo dos anos os voluntários da ATACA têm auxiliado na sua gestão diária e providenciado acompanhamento escolar. A ATACA apoia ainda a alimentação, saúde, educação e vestuário das crianças e jovens da Casa Esperança.


(I.P.): A ATACA tem desenvolvido um trabalho contínuo em África. Junto das regiões mais desfavorecidas qual tem sido a forma de atuar da Associação?
(I.S.): A ATACA propõe-se conceber, implementar e gerir projetos sociais direcionados para crianças africanas em situação vulnerável e respectivas comunidades, promovendo melhorias nas vertentes alimentar, educativa, cultural, de formação para a vida e de higiene e saúde. Esta intervenção torna-se possível através de financiamentos de tutores à distância, de donativos de cidadãos e entidades públicas e privadas, de parcerias com organizações congéneres e da cooperação com entidades locais. Sonhamos com um mundo sem pobreza, mais equilibrado e justo, onde a criança possa desenvolver o seu potencial em paz e com igualdade de oportunidades, sem perder a sua identidade. Neste sentido, a ATACA procura dar resposta às questões mais centrais para a vida e o desenvolvimento integral das crianças e das comunidades, dando especial atenção àquelas que estão localizadas em áreas mais rurais e remotas e tendo como prioridade a área da educação.
Um dos elementos fulcrais na atuação da ATACA prende-se com o estabelecimento de parcerias com entidades locais, que permitam favorecer o crescimento e sustentabilidade dos projetos. Por exemplo, no projeto PTàD, que apoia crianças e jovens, a sinalização das crianças e jovens que vão integrar o projeto é feita pelas entidades locais com quem trabalhamos – escolas, diocese, congregações – que têm um conhecimento mais aprofundado sobre as necessidades de cada comunidade.
A ATACA tem trabalhado em Moçambique, nas províncias da Zambézia, Cabo Delgado e Maputo. No futuro, gostaríamos de estender a nossa atuação a outros PALOP.


(I.P.): Este ano a Associação celebra dez anos. Olhando em retrospetiva que balanço faz deste período?
(I.S.): Foram 10 anos de crescimento sustentado e, acima de tudo, de resultados no terreno que nos fazem acreditar que juntos podemos mesmo mudar o mundo. Olhando para trás, percebemos que já passámos por muitos lugares - Quelimane, Maputo, Milange, Pemba, Ocua, Inhassunge e Milevane – e que em cada um deles fomos encontrando projetos ou pessoas diferentes com quem trabalhar, mas sempre com o mesmo objetivo no horizonte. E o que têm também em comum todos estes lugares é que marcaram quem por lá passou como voluntário da associação e sabemos que muitos dos caminhos que se foram cruzando com o nosso têm também a marca da ATACA. Este “encontro”, mais ou menos prolongado, dá frutos e pode até mudar vidas.
Os resultados que fomos alcançando nos 10 anos que passaram fazem-nos querer ir mais longe nos 10 anos que estão para vir - responsabilizam-nos e motivam-nos para trabalhar para o crescimento dos projetos e da organização. Queremos estar cada vez mais próximos das pessoas e construir futuros com as crianças, as famílias, as escolas e as comunidades.
Neste momento, a ATACA desenvolve projetos na Província da Zambézia, nas localidades de Quelimane, Inhassunge e Milevane, e conta com o imprescindível contributo de 2 colaboradores em Moçambique. Em Portugal, são mais de 30 voluntários a dar apoio aos vários departamentos da ATACA.
Graças ao trabalho de todos estes intervenientes, em 10 anos a ATACA já apoiou mais de 600 crianças e suas famílias, contando com a colaboração de mais de 1000 tutores.


(I.P.): O Projeto Tutor à Distância (PTàD) é de fato um projeto muito especial. Como é que funciona?
(I.S.): O Projeto Tutor à Distância (PTàD) mobiliza cidadãos portugueses para se tornarem tutores de uma criança ou jovem africano desfavorecido pelo período mínimo de um ano, comprometendo-se a financiar mensalmente as suas despesas de sobrevivência: alimentação, vestuário, saúde, melhorias na habitação e educação. Os donativos dos tutores são entregues a instituições que têm crianças a seu cargo ou às famílias, que devem aplica-lo de forma a atingir alguns objetivos de melhoria das condições de educação e de vida das crianças. Todo este processo é monitorizado pelos colaboradores da ATACA em Moçambique, que trabalham com as famílias e entidades locais no sentido de garantir que os donativos dos tutores estão a ser, de facto, utilizados em prol das crianças. Estes colaboradores asseguram ainda a comunicação entre as crianças e os tutores, através da recolha de cartas, vídeos, fotografias, desenhos e dados relevantes sobre a vida da criança.
Algumas destas crianças, nomeadamente as que estão no orfanato que a ATACA apoia, são acompanhadas ao longo de vários anos, até atingirem a maioridade. Temos tido casos de sucesso que nos ajudam a compreender qual o melhor rumo a seguir na orientação deste projeto. Por um lado, alguns jovens acabam por ir para a universidade ou recebem formação para exercerem uma determinada profissão e depois conseguem inserir-se no mercado laboral e melhorar as suas condições de vida – e neste sentido, surge um novo projeto da ATACA, que consiste na atribuição de bolsas de estudo para ensino secundário ou universitário. Por outro lado, quando apoiamos famílias, algumas “mamãs” conseguem guardar uma parte do donativo para investir em pequenos negócios e gerar mais rendimentos para o seu agregado familiar, deixando de estar dependentes do donativo dos tutores e abrindo, assim, lugar para que outra família seja abrangida pelo projeto e tenha oportunidade de dar também o salto. Inspirados por estes exemplos, estamos a avaliar a possibilidade de implementar projetos em áreas como a agricultura e o microcrédito, para dar seguimento ao trabalho realizado com as famílias.


(I.P.): Perspetivando o futuro, quais são os desafios que a ATACA tem pela frente?
(I.S.): São vários os desafios que a ATACA tem pela frente e é com muito entusiasmo que os abraçamos - se estes desafios existem, é porque são fruto do esforço e do trabalho de crescimento e consolidação que tem vindo a ser feito desde 2006 até agora. Sentimos que estamos a entrar numa nova fase, que passará, essencialmente, por profissionalizar a ATACA. Se por um lado a nossa atuação no terreno está consolidada e temos em aberto a possibilidade de chegar a mais crianças, jovens, famílias e comunidades, por outro é preciso ainda melhorar alguns processos e limar arestas no que toca à gestão da organização cá em Portugal. Só assim poderemos alargar a nossa intervenção e estendê-la a mais pessoas e a novas regiões de África, sem que se perca qualidade, rigor e identidade com esse alargamento. Para entrar nessa nova fase, precisamos de captar mais fundos, diversificar as fontes de receita, alargar e formar continuamente a nossa equipa, melhorar a comunicação, entre muitos outros pontos que temos de trabalhar.
Do nosso ponto de vista, o maior valor da ATACA são os projetos que implementa há 10 anos e que melhoram de facto a vida de muitas crianças e famílias, abrindo oportunidades para um futuro melhor. Através dos projetos e dos resultados alcançados, a ATACA consegue agregar doadores, voluntários e parceiros em torno de uma causa e contar com o seu contributo ao longo de vários anos. Por esta razão, diria que a atuação no terreno é o motor da associação – tudo começa nos projetos e, depois de vários processos que envolvem inúmeras pessoas e entidades, vai acabar neles também.


(I.P.): Ajude-nos a tentar perceber. Como vai o coração de alguém que aterra em África e como segue, o mesmo coração, quando regressa a Portugal? Se for possível descrever, o que trazem convosco?
(I.S.): O coração de alguém que aterra em África vai cheio de sonhos, ambições e a esperança de Mudar o Mundo. Quando realmente te apercebes da situação à tua volta, que por mais formação pré-partida que tenhas, tem que ser vista, sentida e vivida, o coração fica bem pequenino… Passas de um extremo ao outro, sentes-te insignificante, impotente, frustrada no meio de tanta pobreza, tantas necessidades e tanto para fazer. Apercebes-te do quão privilegiada és, por teres nascido numa realidade cheia de oportunidades, e de como frequentemente não dás valor ao que tens.
Felizmente, o impacto que a ATACA tem no terreno faz-se sentir e ganhas uma força que te permite acordar todos os dias com esperança e lutar por aquilo em que acreditas. Sabes que não vais mudar O Mundo, mas podes melhorar vários pequenos mundos, o de cada criança que a ATACA apoia, dando-lhes as oportunidades pessoais e económicas que nunca tiveram. Ainda assim, tens sempre a sensação de que recebes mais do que aquilo que tens para oferecer. A vida em Moçambique é difícil, mas as pessoas aprendem a serem felizes com muito menos. Como alguém dizia “de um limão faço uma limonada”! E de dia para dia o teu coração fica cheio, cheio como nunca o sentiste.
Depois há o regresso… Por um lado sentes que voltas à tua casa de sempre, onde tens a tua família, os teus amigos; por outro, sentes que deixas uma parte de ti em Moçambique e o coração volta a ficar pequenino… Por um lado as saudades apertam, por outro é reconfortante saber que a ATACA continua no terreno a oferecer oportunidades e a promover o desenvolvimento de um povo maravilhoso.
Apercebes-te de que vivemos com muito mais do que realmente precisamos, de que nos queixamos muitas vezes sem razão e de que se todos fizéssemos um bocadinho para melhorar a vida de alguém, o mundo seria um lugar mais justo e feliz. Por acreditar neste projeto, que sem dúvida faz a diferença na vida de muitas pessoas, assumi um papel de maior responsabilidade na ATACA, mas também por saber que desta forma damos oportunidade a todos os que querem contribuir para um mundo melhor. Sentir pena não muda nada e sozinhos só conseguimos chegar até certo ponto, mas juntos PODEMOS MUDAR O MUNDO!


(I.P.): Há mais pessoas envolvidas em ações de voluntariado, cientes do impacto do voluntariado na vida das outras pessoas e nas suas próprias vidas?
(I.S.): Em termos de procura, acho que tem havido alguma evolução. A sociedade civil está mais atenta e mais disponível para fazer parte de projetos que melhorem a vida de quem mais precisa. Há muitas pessoas a contactar a ATACA, em especial para participar em missões de voluntariado internacional – neste caso, em Moçambique. Estes voluntários têm um papel crucial nos projetos e no acompanhamento que a ATACA faz às crianças e famílias que apoia em Moçambique. Contudo, este aumento da procura por oportunidades de voluntariado internacional tem de ser acompanhado, da nossa parte, por uma triagem rigorosa, porque nem sempre a vontade de ajudar significa um conhecimento, por parte de quem se voluntária, das exigências do trabalho e da adaptação a uma realidade tão diferente da nossa.
Falando da nossa experiência do trabalho com voluntários em Portugal, posso dizer que a ATACA se orgulha de manter os mesmos voluntários há vários anos e que estes são uma mais-valia para o nosso trabalho, apoiando os diferentes departamentos da associação, normalmente com frequência semanal e com um enorme sentido de responsabilidade e compromisso. E aqui tenho de dizer que é admirável ver que existe tanta disponibilidade e vontade de ajudar pessoas que estão tão longe de nós, que se calhar nunca vamos conhecer, mas que sabemos que irão de alguma forma beneficiar do trabalho conjunto de uma equipa de 30 pessoas que se encontra a milhares de km de distância do sítio onde as mudanças acontecem todos os dias.


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