“Começamos com 6 ou 7 artistas e hoje temos mais de 50”

Ideias simples levam a grandes projetos. É o caso da Cooperativa Artística e Cultural 3 + Arte, um exemplo de empreendedorismo e de sucesso. Falamos com Ana Dias e Maria João Alves, fundadoras da Cooperativa 3 + Arte, para ficarmos a saber tudo sobre este projeto.

Impulso Positivo (IP): Comecemos pelas apresentações. O que é a 3 + Arte?

Ana Dias e Maria João Alves (AD e MJA): A 3+ arte é uma Cooperativa Artística e Cultural que tem como objetivo principal promover e dinamizar o intercâmbio artístico através da criação de um espaço aberto à comunidade e direcionado para as artes plásticas, reutilização e reciclagem, onde coabita a trilogia exposição, formação e produção de peças de arte. Numa segunda fase fomos acrescentando diferentes valências para responder à crescente procura, como foi o caso do Vinho do Porto. Estando o nosso espaço inserido no meio das Caves de Vinho do Porto, foi um passo acertado, acrescentar também esta oferta, visto fazer parte da cultura de Vila Nova de Gaia.
Não gostamos de rótulos ou de separações, a arte para nós é arte e todos são bem-vindos. Desde o artesão que está a iniciar ao artista de renome.

IP: Como nasceu este projeto?

AD e MJA: Mesmo para nós torna-se caricato perceber que tudo começou em com a necessidade de encontrar um ‘pequeno’ espaço para trabalhar. Esta procura durante alguns meses levou à noção que mesmo duas pessoas à procura de um atelier a preços acessíveis e com uma boa localização é quase como ‘procurar uma agulha num palheiro’. No entanto, desde o inicio deste projeto, são as coincidências felizes que o fizeram nascer e crescer. Num almoço entre amigos, ao referirmos a nossa procura, falaram-nos do espaço onde agora nos encontramos. Na primeira vez que entrámos pelo portão, penso que tivemos logo a noção do potencial, ultrapassando a realidade de um espaço muito degradado e sujo. Uma das primeiras alterações ao nosso plano inicial foi pensar que o espaço era demasiado para duas pessoas, mas que assim como nós, mais artistas tinham as mesmas dificuldades e porque não criar um espaço não só para nós mas para todos… assim surgiu a primeira ‘pedra’ na criação da Cooperativa. Ultrapassada a fase burocrática em 2013, foi necessário a reabilitação do espaço. Costumamos dizer que as nossas instalações contêm o nosso ADN e que se tudo falhar estamos todos aptos a trabalhar na construção civil, uma vez que a grande maioria das obras foram realizadas por nós. Isto levou a que o espaço tenha, como muitos visitantes nos indicam, uma ‘aura’ diferente…
A Cooperativa 3+ arte abriu o seu espaço ao público a 26 de julho de 2014. O caminho percorrido para isto acontecer teve a ajuda das mais variadas entidades e pessoas, desde a pessoa que fez questão de pegar num pincel para nos ajudar a pintar uma parede, a entidades que nos ajudaram com excedentes e desperdícios de produção para serem usados na recuperação do espaço.
Desde o início do nosso projeto, somos muitas vezes convidadas para participar em debates e palestras para grupos de empreendedores. É importante para nós passar a mensagem que se queremos muito, mas mesmo muito alguma coisa, pode ser difícil mas é possível. Ainda temos muitas dificuldades e dúvidas e muitas mais vão surgir, mas as pedras que vamos afastando do nosso caminho, constroem caminhos para que outros nos sigam.

IP: No mesmo espaço reúnem artistas plásticos, organizam exposições e formações, um conjunto muito amplo de atividades em que encaixam também a gastronomia. Neste espaço há um autêntico ‘intercâmbio artístico’. Como avaliam a recetividade das pessoas a um conceito tão diferente?

AD e MJA: A 3+ arte não é estática, nem nunca o será. Dizemos muitas vezes que no dia em que não haja mais nada para criar ou desenvolver, será o dia em que encerraremos portas. Todo o projeto foi criado passo a passo e para nós é muito importante escutar as opiniões das pessoas que nos visitam, assim como dos artistas que fazem parte desta ‘família’. A criação de um espaço com vinho do Porto e produtos regionais nasceu da procura existente nesse sentido. Mesmo no período de recuperação do espaço, tínhamos pessoas a entrar pela porta à procura de vinho do Porto… e porque não? Degustar um bom vinho e um petisco português ao mesmo tempo que estamos rodeados de arte… faz cada vez mais sentido. Uma das nossas preocupações iniciais foi a procura de uma marca de vinho do Porto que se conjugasse com o conceito. Bastou apenas uma troca de emails para percebermos que a Niepoort correspondia à nossa procura, quer pela qualidade dos vinhos, quer pela sua imagem. Aliás, a primeira exposição que a 3+ arte fez, foi sobre os rótulos da Niepoort (desde os mais antigos aos mais recentes).
Desde o início que este espaço foi pensado para acolher todas a atividades artísticas ou culturais que possam fazer sentido ou que seja logisticamente possível, com o mínimo de barreiras possível (a entrada é gratuita). Assim, desde workshops que são realizados no meio do espaço e que os visitantes podem observar (e muitas vezes nos pedem para participar), a exposições individuais ou coletivas, concursos, degustações, etc. Paralelamente temos também os nossos momentos inesperados, em que alguém pega na viola que temos disponível no espaço para quem a quiser usar e nos oferece um verdadeiro miniconcerto… a profissionais de dança que nos oferecem a oportunidade de ver um tango no meio da galeria… a artistas que se sentam a desenhar e no final nos mostram a sua arte.
Temos a noção que a 3+ arte é um espaço diferente, todos os dias temos visitantes das mais variadas nacionalidades que não conseguem deixar de expressar surpresa quando sobem a rampa e vêem o espaço pela primeira vez. Mas talvez a reação que nos deixa orgulhosos e cientes que estamos a atingir os nossos objetivos é a admiração pelos artigos que temos expostos. Não é raro o visitante comprar uma peça quando o artista se encontra no nosso espaço e ter a oportunidade de o conhecer. São momentos como este que fazem toda a diferença.
Começámos com artigos de cerca de 6/7 artistas e hoje temos mais de 50. Damos a oportunidade de ter uma ‘montra’ aberta ao mundo. Continua a ser fantástico dizer ao artista que as suas obras foram para a Austrália, ou para o Japão…

IP: Em julho celebraram dois anos desde a abertura do espaço que acolhe o 3 + Arte. Que balanço fazem deste período de atividade? E quais são as perspetivas futuras?

AD e MJA: Sendo este um espaço diferente, foi difícil prever como seria a aceitação do público. Acreditávamos no projeto mas nada nos preparou para o número de visitantes que temos até agora. Já ultrapassámos as 41000 visitas. Um dos nossos melhores indicadores é também a opinião que as pessoas partilham tanto na nossa página do Facebook ou no Tripadvisor, assim como o que nos deixam escrito no nosso livro de visitas que se encontra disponível para quem queira partilhar algo connosco.
O crescimento do número de artistas que colabora connosco, também é um ótimo indicador do nosso crescimento. No início existia muita desconfiança sobre o projeto, ninguém nos conhecia e muitos já tinham passado por situações constrangedoras com algumas entidades. Os artistas que colaboram connosco sabem desde o primeiro dia como funcionamos, que para nós o artista é o mais importante, é para ele que o projeto foi criado. Ao longo destes dois anos, criámos laços de amizade, de partilha e principalmente de confiança. Hoje contamos com trabalhos de mais de 50 artistas, na maioria locais, com algumas representações do resto do País. Começamos também cada vez mais a ter procura por parte de artistas estrangeiros , residentes ou não em Portugal.
Embora de momento tenhamos três artistas residentes, uma empresa de eventos e uma companhia de Teatro, a nossa ‘família’ abrange um número de artistas e amigos maior do que os artistas aqui representados. A partilha de experiências, as atividades organizadas e os desafios que vão surgindo são sempre importantes para o crescimento da 3+ arte.
Temos algumas entidades que colaboram connosco e nos dão força para continuar, como é o caso da Antiga Casa Pompeu, da TDG Têxteis Dillmann Gomes, da Junta de Freguesia e da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia e do Museu de Santa Maria de Lamas, entre outras. Temos também entidades com as quais colaboramos sempre que nos é possível, como a Associação Abraço, a PSP, a Miacis, a Cercigaia, escolas e colégios, centros de dia como o do Bom Pastor, entre outras. Um dos nossos objetivos é envolver a comunidade, seja através de eventos ou de desafios artísticos. Não é incomum nos nossos concursos ou exposições ter participantes das mais variadas áreas e idades. Recordamos sempre com um sorriso uma participante que tinha uns saudáveis e motivadores 92 anos, ou a felicidade de outra participante sénior que ganhou o 2º prémio num dos nossos concursos de fotografia… o nosso percurso está preenchido de momentos inesquecíveis.

IP: Sentem que há apoio ao artesão em Portugal?

AD e MJA: Existe algum apoio, mas não o suficiente. É sempre difícil conseguir ajudar em todas as dificuldades uma vez que elas são muitas e variadas.
É muito difícil viver da arte, normalmente sobrevive-se! A necessidade de criar muitas vezes é interrompida pela necessidade financeira e leva a que normalmente sejam atividades acessórias a algo que lhes consiga garantir um ordenado ao fim do mês. Existe também a dificuldade de ter acesso a toda a informação sobre como garantir a defesa do seu produto, a sua certificação e promoção. Para nos auxiliar neste âmbito, contamos com a parceria da Associação Portugal à Mão.

IP: Há espaço no mercado nacional para os pequenos artesãos, ou as grandes marcas ‘estandardizadas’ estão fazer com que o consumidor os ‘esqueça’?

AD e MJA: Ao longo destes mais de dois anos, fomos aprendendo que hoje em dia as pessoas valorizam cada vez mais a genuinidade, a diferença, a identidade. Se há alguns anos a massificação de produtos ‘turísticos’ surgiu por um crescimento acentuado do Turismo, hoje em dia cresce a procura da arte de artesãos locais, realizados em pequena escala, através de métodos tradicionais. Mas também existe uma procura pela inovação ao unir o tradicional e dar-lhe como costumamos dizer ‘um twist’. A massificação leva muitas vezes à criação de um nicho de mercado para a diferença. Muitas vezes a dificuldade é fazer com que estes produtos sejam mostrados no local certo, ao público certo. E é aqui que achamos que conseguimos fazer a diferença. No início não nos apercebemos de todo o potencial da nossa localização, mas cada vez mais temos a noção que temos uma ‘montra’ para o Mundo.
Acreditamos nos nossos produtos, acreditamos nos nossos artistas, temos um dos países mais ricos em cultura e cada vez mais urge aproveitar estes recursos. Se os nossos visitantes estrangeiros o valorizam cada vez mais, só temos que ter orgulho no que é nosso.

I.P: Qual a importância destes espaços partilhados para os artesãos?

AD e MJA: A possibilidade de ter um espaço (atelier) inserido num local privilegiado, com acesso a ponto de venda e oficina, para muitos artistas (nós incluídas) seria impraticável. As despesas fixas, burocracia, tempo e recursos seria uma barreira difícil de ultrapassar. Com a colaboração de todas as pessoas residentes ou não, tal é possível. A partilha, a colaboração e mesmo a própria motivação, leva a um crescimento sustentável e real. É um cliché, mas para nós é uma verdade absoluta: “A união faz a força”. Numa realidade económica que por muito que esteja em recuperação, não recupera na velocidade que é necessário, muitas vezes apenas o facto de alguém acreditar em nós e no nosso trabalho e nos ajudar a dar os primeiros passos, faz a diferença.

Acompanhe o trabalho inspirador da 3 + Arte no FACEBOOK e conheça mais sobre o projeto AQUI .
Não deixe de visitar o espaço no Largo Joaquim Magalhães, nº 12, 4400-187 em Vila Nova de Gaia.