Eficiência Energética e Sustentabilidade, Fontes de Receitas Próprias

Eficiência Energética e Sustentabilidade, Fontes de Receitas Próprias
Engº Luis Castanheira
Energaia – Agência Municipal de Energia de Gaia

O planeta que habitamos enfrenta actualmente um problema de insustentabilidade, nas vertentes económica, ambiental e social. Este problema, que resulta fundamentalmente das limitações físicas que o planeta apresenta em gerar novos recursos, e em tratar os subprodutos da actividade humana, apela a novos paradigmas de gestão e governação. De uma forma geral, e no que diz respeito às organizações, a aplicação de paradigmas de gestão que incorporem a sustentabilidade como prioridade estratégica, tipicamente levam a organizações a ser mais competitivas, a ter melhor ambiente de trabalho e uma menor pegada ambiental.

As instituições sem fins lucrativos, incluindo as de solidariedade social, têm uma estrutura de custos da qual fazem parte os custos relativos aos consumos de água e energia, nas suas diversas formas, recursos escassos e cuja utilização está associada a um impacto ambiental. Por outro lado é expectável que, por diversas razões, os custos unitários destes recursos venham a ser objecto de aumentos significativos, com os indesejados impactos deste facto ao nível das contas das organizações. Se considerarmos que uma maioria significativa destas organizações gere edifícios, e que o sector dos edifícios é responsável por cerca de 40% do consumo total de energia da União Europeia, deduzimos com facilidade da relevância de uma intervenção sobre estes sistemas.

Na consideração do objectivo de poder apontar algumas soluções facilmente implementáveis, que possam reduzir os custos das organizações alvo desta publicação, e na tentativa de criar um menu de opções que cada uma das organizações possa escolher de forma avulsa ou cumulativa, apresentam-se as seguintes propostas:

• Sistemas Solares Térmicos – Em todas as instalações onde exista a necessidade de aquecimento, com especial enfoque no caso da produção de Águas Quentes Sanitárias (AQS), um investimento num sistema solar térmico é, sem dúvida, recomendável. Referira-se que um sistema destes, ao longo de um ano de utilização, pode fornecer cerca de 70% do total das necessidades energéticas para esta função.
• Sistemas Solares Fotovoltaicos – Um sistema solar fotovoltaico produz energia eléctrica directamente a partir da radiação solar. Apesar de este tipo de sistemas ter vindo a sofrer reduções de custos significativas nos últimos anos, a sua utilização para auto-consumo da energia produzida em edifícios, dificilmente terá viabilidade económica. No entanto, dado que a sua concretização comporta um conjunto de valias significativas para o país como um todo, a sua utilização é objecto de instrumentos de apoio por parte do Estado, os quais foram, recentemente, objecto de ajustes regulamentares. A ideia base passa por integrar estes sistemas nos edifícios, vendendo a totalidade da energia produzida à rede eléctrica, com taxas de rentabilidade do investimento que normalmente superam as de aplicações alternativas nomeadamente as propostas pela banca de retalho, sendo que ela própria propõe muitas vezes soluções de financiamento para estes sistemas.
• Sistemas de Redução do Consumo de Água – A água é um recurso natural muito valioso, cada vez mais escasso, e com utilização generalizada nos edifícios, a que correspondem custos não desprezáveis. Por outro lado, muitas das funções relacionadas com a utilização de energia estão directa ou indirectamente relacionadas com a utilização da água, como é o caso do aquecimento de AQS, ou mesmo, em muitos casos, a climatização dos espaços. Considerando ainda a elevada pegada energética dos sistemas de abastecimento de água, são múltiplas as razões para se investir na racionalização deste recurso.
Tecnologias como os perlatores para redução de caudal, com reduções de consumo que podem superar os 50%, são hoje extremamente flexíveis em termos da sua aplicabilidade e dos custos de investimento os quais são desprezáveis em face da economia que podem proporcionar. De igual forma as tecnologias para redução de fluxo associadas a sistemas chuveiro, produtos como o ecocubo, ou torneiras temporizadas são hoje em dia de muito fácil e rentável implementação.
A outra escala, e para funções mais específicas, mas obrigando a estudos de avaliação de viabilidade de maior complexidade, poderão ser considerados sistemas de recolha das águas da chuva, ou de recuperação de águas cinzentas.
• Iluminação Eficiente – A iluminação dos espaços representa normalmente uma parcela significativa dos custos de energia dentro dos edifícios. Em simultâneo, as tecnologias de iluminação têm vindo a ser objecto de inovação representativa, permitindo hoje a manutenção dos mesmos níveis de iluminância e respectivos graus de uniformidades da iluminação dos espaços, com uma fracção dos consumos. Atente-se ainda nas possibilidades, muitas vezes inexploradas ou subaproveitadas, de iluminação natural que podem potenciar significativas reduções de custos em energia e equipamentos.
• Climatização Eficiente – A climatização dos espaços no edificado é tipicamente responsável pela maior fatia do consumo de energia do mesmo. Se bem que, em teoria, os sistemas responsáveis por esta função sejam escolhidos ao nível do projecto, a prática revela que muitas vezes as opções realizadas não são as mais eficientes, ou os sistemas não existem de todo, caso em que são utilizadas soluções de recurso.
As oportunidades de intervenção neste contexto, nomeadamente até pela promoção de medidas passivas, como o recurso a estratégias de free cooling ou outras, de consumo de energia nulo, são merecedoras de uma análise cuidada. Também ao nível dos sistemas activos têm surgido no mercado opções de elevada eficiência, que devem sempre ser avaliadas em função da tipologia de utilização pretendida, mas que podem proporcionar reduções de custos significativas.
• Equipamentos Eficientes – A profusão de equipamentos consumidores de energia nos edifícios é hoje considerável, desde todos aqueles que se relacionam com as Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), até outros de suporte às diversas actividades que aí se desenvolvem. Em muitos destes casos existem já hoje classificações de eficiência, como é o caso da classificação Energy Star, que nos fornecem informação sobre a eficiência dos equipamentos. Por outro lado, numa perspectiva de conservação de energia, é fundamental a utilização dos mesmos apenas quando necessário, eliminando por exemplo consumos e custos desnecessários como aqueles que advêm do consumo em standby. Esta é uma linha de actuação que exige um aprovisionamento informado, mas também uma gestão do parque de equipamentos instalados altamente regrada, o que pode ser conseguido também com o auxílio de alguma tecnologia, como é o caso dos sistemas de monitorização, tal como exposto em ponto subsequente deste artigo.
• Sistemas de Monitorização – Aquilo que não se conhece não se consegue gerir. Apesar da verdade inegável da afirmação anterior, é espantoso que em muitos sistemas consumidores de recursos, nomeadamente energia, não existam sistemas de controlo e monitorização dos consumos. Actualmente a sobreposição funcional entre as TIC e os sistemas de energia é cada vez maior, existindo um vasto leque de opções no que diz respeito à implementação de sistemas como os atrás referidos. Por essa razão, e dadas as características cada vez mais mutáveis dos sistemas de aprovisionamento dos edifícios, um sistema de controlo e monitorização de consumos é uma peça indispensável do adequado funcionamento do mesmo, minimizando consumos e custos, mas contribuindo também para a detecção atempada (e, por vezes, até precoce) de situações anómalas de funcionamento, com consequente repercussão ao nível dos custos de manutenção.
• Gestão da Procura – Por último, mas nem por isso menos importante, a Gestão da Procura. Ainda muito recentemente se descobriu que alguns edifícios de muito melhor concepção (e como tal muito mais eficientes) que outros, se vinham a revelar na sua fase de exploração, como maiores consumidores de energia. Tal facto deve-se ao perfil de exploração, que é como dizer ao comportamento dos ocupantes do edifício.
Sendo a área comportamental uma das mais difíceis de tratar, até porque exige um esforço continuado e os hábitos arreigados são mais difíceis de mudar do que os equipamentos, é também daquelas com melhor retorno, na medida em que grande parte das medidas aqui em causa são de investimento nulo. Nessa perspectiva, uma abordagem integrada à questão da comunicação para a eficiência, com propostas de acção muito concretas, deve constituir uma das prioridades de um plano para a eficiência energética dos edifícios.

A abordagem aqui proposta presume a existência do edifício, pois se o cenário for o da construção de um novo, a abordagem deverá ser radicalmente diferente, assente numa Análise de Ciclo de Vida global ao projecto, de forma a verdadeiramente se minimizar o impacte ambiental. Conceitos como o de energia embebida são neste caso absolutamente fundamentais.

Finalmente, muitas vezes o factor investimento é apontado por algumas organizações como a razão fundamental para a sua incapacidade de implementar projectos de racionalização de consumos de recursos. Hoje, mais do que nunca, é importante desmontar este argumento. De facto, com o surgimento do enquadramento legal para as Empresas de Serviços de Energia (ESE), todo e qualquer projecto que tenha viabilidade técnica e económica é, em princípio, alvo de potencial proposta de investimento por parte destes agentes de mercado. Estas empresas, que actuam num modelo de partilha do valor criado pelas poupanças geradas normalmente no contexto de um contrato de médio/longo prazo, fazem todos os investimentos necessários às acções criadoras de valor, monitorizando o desempenho das mesmas, e assumindo o risco de desempenho inferior ao expectável, assim como também um potencial prémio por desempenhos excepcionais.

Se é verdade que, muitas vezes se esgrima o factor capital como um entrave à corporização da sustentabilidade, a verdade é que existe um factor mais importante do que este – as pessoas. Estas são o verdadeiro factor crítico do processo, na medida em que, por mais sistemas que se utilizem, estes servirão para as pessoas e serão por elas utilizados, e serão estas que, incorporando os princípios da sustentabilidade, os poderão replicar e disseminar.