Ganhar o FAZ e preservar a vida marinha no Sado

A Ocean Alive foi a grande vencedora do Prémio FAZ - Ideias de Origem Portuguesa. O Impulso Positivo falou em exclusivo com Raquel Gaspar, uma das fundadoras do projeto que quer preservar as pradarias marinhas do Sado. Conheça este projeto fascinante e saiba porque é tão importante.

 

Impulso Positivo (IP): O que é a Ocean Alive? 

Raquel Gaspar (RG): É uma cooperativa cultural que tem como missão transformar comportamentos para a proteção do oceano através da educação marinha e do envolvimento das comunidades costeiras. Organizamos campanhas e visitas educativas e científicas que sensibilizam a comunidade piscatória e o público em geral para um oceano sustentável e que geram empregabilidade às pescadoras do estuário do Sado.

 

IP: Como e quando nasceu? 

RG: A Ocean Alive surgiu da simbiose entre as preocupações de duas das suas sócias fundadoras. Proteger o habitat mais importante dos golfinhos do Sado, que são as pradarias marinhas, e valorizar a atividade piscatória tradicional portuguesa. A cooperativa formou-se com 5 membros em Março de 2015. A motivação da Sofia Jorge são as suas raízes familiares e geográficas ligadas às comunidades pesqueiras. Como bióloga marinha, acompanho a população de golfinhos do Sado há mais de 20 anos. Foi através do meu doutoramento que concluí que a única forma de evitar o seu declínio era proteger o habitat mais importante destes golfinhos, as pradarias marinhas. Este habitat constituído por plantas aquáticas rizomatosas é o terceiro habitat do nosso planeta com mais valor e está em declínio a uma taxa equivalente a dois campos de futebol por hora. No estuário do Sado existem cerca de 55 hectáres cujos benefícios ecológicos que nos prestam representam quase um milhão de euros por ano.

 

IP: Que projetos foram já implementados? 

RG: Já implementámos 4 projetos. As atividades de educação marinha, que consistem em ações de formação, workshops e oficinas, dirigidos a escolas, professores e a municípios, onde já participaram mais de 1000 crianças e 300 professores. Para além das nossas atividades, participámos também num projeto de educação marinha sobre o lixo marinho, financiado pelo EEAgrants. Outro projeto educativo que está prestes a ser implementado é o Ocean Alive Camp Summer School, um campo de férias formativo que visa vincular a proteção do oceano no futuro dos nossos jovens e que tem como parceiro a Unesco. Arrancará durante este próximo mês de Julho. Em Março passado demos início a uma campanha de sensibilização junto da comunidade piscatória e recreativa no estuário do Sado, para eliminar uma das ameaças das pradarias marinhas, o lixo causado pela mariscarem.  Trata-se da campanha de sensibilização e limpeza de praia no estuário do Sado que tem por objetivo acabar com o mau hábito dos mariscadores em deixar as embalagens de plástico de sal fino vazias na maré, sal esse que é utilizado na apanha do lingueirão e do casulo. Esta campanha conta com 13 ações realizadas por voluntários, acontecendo uma por mês. Nas 4 ações realizadas, recolhemos mais de 7.400 embalagens e sensibilizámos 343 mariscadores. Para além destas ações pontuais, procuramos financiamento para suportar um trabalho sociológico dentro da comunidade piscatória com vista à promoção de boas práticas. Os tours natureza são o nosso quarto projeto em marcha. No Verão passado começámos um piloto para atividades educativas e lúdicas que são guiadas por mulheres pescadoras do estuário do Sado que estão desempregadas. Criámos os tours de ecoturismo no mercado do peixe e a bordo (“Há mar no mercado” e "Vida marinha a bordo”), nos quais participaram cerca de 500 pessoas. Estas atividades valorizam a sabedoria e experiência de vida das pescadoras num contexto de sensibilização e educação marinha, pretendem criar oportunidades para novas profissões e constituir um complemento financeiro. À parte destes tours, organizamos as Noites de estrelas e Pirilampos, que se realizam de maio a julho e na qual já participaram mais de 1500 pessoas. Esta atividade educativa noturna consiste na observação astronómica e de pirilampos e tem a magia de abrir uma  janela para o mar profundo, o reino da bioluminescência. 

 

IP: Recentemente foram as grandes vencedoras do Prémio FAZ Ideias de Origem Portuguesa. Quem são os membros desta equipa? 

RG: Para além de mim, a a equipa é constituída pela Sofia Jorge, gestora, cofundadora da Ocean Alive, e duas mulheres pescadoras do estuário do Sado, colaboradoras da Ocean Alive, a Rosa Ferreira e a Cláudia Martins.

 

IP: Que retrospetiva fazem de todo o processo de candidatura ao Prémio FAZ ideais de Origem Portuguesa?

RG: A candidatura a este prémio levou à formação de uma equipa de 4 mulheres com interesses cruzados e à identificação clara do problema que tínhamos em comum: a degradação de um habitat berçário da vida marinha, que leva à diminuição do pescado, ao desemprego e desvalorização social das pescadoras e por outro lado, à diminuição das presas dos golfinhos do Sado contribuindo para o declínio desta população. A maior dificuldade foi, uma vez selecionada a nossa ideia para a final, conseguir estarmos as 4 juntas durante 3 dias isoladas das nossas famílias e responsabilidades. Por exemplo, a Sofia vive em Barcelona, a Cláudia nunca se tinha ausentado de casa e teve de deixar o marido a pescar sozinho.  Mas sem dúvida que valeu a pena! O ponto alto desta candidatura foram os 3 dias do Bootcamp. Para além da excelente qualidade técnica e humana dos monitores do IES, e da colaboração entre as 10 equipas finalistas, o nosso maior benefício foi conseguir sintonizar a proposta de valor do projeto.

 

IP: Que papel têm as parcerias no desenvolvimento da Ocean Alive?

RG: Para implementação dos nossos projetos estabelecemos parcerias com empresas, associações, juntas de freguesias, as Câmaras de Setúbal e de Grândola, o Instituto da Conservação da Natureza e Florestas,  e com universidades portuguesas e no estrangeiro. Conseguimos também a parceria da Unesco para todo o programa de atividades da Ocean Alive. 

 

Que resultados é que a Ocean Alive já alcançou ao longo do seu percurso? 

RG: As Noites de Estrelas e Pirilampos estão integradas no Ano Internacional da Luz (AIL2015- Unesco), a campanha de sensibilização e o Ocean Alive Camp estão integrados no Ano internacional do Entendimento Global. Em particular a campanha tem permitido envolver a sociedade na resolução de um problema local, mas que é de todos, o plástico nos oceanos. Nas 4 ações da campanha  já participaram 71 voluntários e 65 crianças. Estamos a conseguir fazer o elo de ligação entre os mariscadores e as entidades locais para a implementação de soluções, como por exemplo, a colocação de caixotes de lixo pela Câmara Municipal de Setúbal, nos locais de mariscarem e a reciclagem do plástico recolhido. Outro exemplo do nosso alcance é o envolvimento dos supermercados Jumbo e Pingo Doce na alteração de comportamentos dos mariscadores. Este último supermercado é o principal abastecedor das embalagens de sal fino dos mariscares e tem nas prateleiras do sal a mensagem da nossa campanha: “não deixe as embalagens no mar". Os tours com as pescadoras, e em particular o do mercado fará parte das atividades apoiadas pela Agência Nacional Ciência Viva no seu programa "Ciência Viva no Verão”.  Para além do Prémio Faz Ideias de Origem Portuguesa, eu ganhei no ano passado, a Ariane de Rothschild Fellowship que premeia empreendedores sociais. 

 

IP: Que projetos pretendem continuar e vir a implementar no futuro, a curto e médio prazo? 

RG: O objetivo da Ocean Alive é proteger as pradarias marinhas do estuário do Sado. Se deixarmos que a sua área diminua, a sua recuperação será muito custosa e de alto insucesso. Pretendemos pois restaurar a qualidade ambiental da área que temos, eliminando 3 ameaças deste habitat que são causadas pela comunidade piscatória e recreativa: o lixo proveniente da mariscarem, as âncoras e suas amarrações colocadas sobre as pradarias e as práticas de pesca agressivas.

 

IP: Como pretendem avaliar o impacto das ações que promovem?

RG: Iremos implementar a curto prazo um projeto de monitorização e de avaliação ambiental que nos permitirá saber, por exemplo, qual foi o impacto da remoção das âncoras no aumento da área das pradarias e na sua produção de pescado e avaliar como isso afeta o emprego das pescadoras e a população de golfinhos. Uma das ações que temos em vista para o mapear e monitorizar das pradarias marinhas é juntar os conhecimentos dos cientistas e a prática do dia a dia das pescadoras e, a médio prazo, envolver os participantes do Ocean Alive Camp, estudantes universitários e turistas, nessa monitorização. Também a médio prazo queremos implementar mais duas campanhas, com vista a eliminar as outras ameaças e criar um sistema de incentivo às boas práticas na comunidade piscatória, por exemplo, pela via da valorização social, capacitação e empregabilidade e pela valorização comercial. 

 

IP: Quais são as grandes metas futuras? 

RG: A nossa visão é conseguir um oceano saudável, protegido pelas comunidades costeiras locais. A grande meta da Ocean Alive é ser um exemplo de referência na forma como conseguirá resolver o equilíbrio entre as necessidades das comunidades costeiras e as necessidades de um oceano saudável, nomeadamente das pradarias marinhas do Sado. Acreditamos que o nosso exemplo irá alavancar a eliminação de outras fontes de ameaça às pradarias.