A Importância do Empreendedorismo Social

A Década do Empreendedorismo Social

Nos dias 21 e 22 de Junho em Paris, a Ashoka, uma organização global que identifica, apoia e celebra empreendedores sociais, vai organizar um grande encontro que irá juntar mais de 1000 empreendedores sociais e apaixonados pelo tema. Por todo o mundo, uma nova geração empenha-se em projectos inovadores que visam a resolução de problemas da sociedade de forma escalável e sustentável. As grandes multinacionais começam a olhar para o empreendedorismo social como forma de inverter a rigidez e dispersão das tradicionais políticas de responsabilidade social, trazendo uma atitude mais inovadora e mobilizadora para as acções que fazem em benefício da sociedade. O mundo académico começa também a entrar nesta área, impulsionado pelo entusiasmo dos alunos por este tema, sucedendo-se o número de cursos, teses e publicações.

Portugal não é indiferente a esta transformação e foi já palco do anúncio de diversas iniciativas neste campo de Norte a Sul do país, incluindo o lançamento de uma bolsa de valores sociais, bem como várias iniciativas de apoio a formação em empreendedorismo social. O Instuto de Empreendedorismo Social vem dinamizando este tema em Portugal desde 2007 e anunciou no dia 15 de Março deste ano o lançamento de programas de formação em parceria com a prestigiada escola de gestão INSEAD.

Esta parece ser a década do empreendedorismo social, depois de um período entre 2005 e 2010 em que o tema passou de relativa obscuridade para o centro das atenções, após o sucesso de iniciativas como o micro-crédito, os hospitais Aravind, o modelo global iniciado com o “Teach for America” e a enciclopédia online Wikipedia, entre muitas outras. Mas qual é o significado e implicações deste afirmar a nível mundial do empreendedorismo social? Até que ponto coloca em causa ou transforma o modelo capitalista vigente na nossa sociedade, que crescentemente tem vindo a ser questionado após crises sucessivas?

>strong>O Modelo Capitalista e as Externalidades

A meu ver, o empreendedorismo social não põe em causa o modelo capitalista mas antes o complementa e melhora. Nos últimos dois séculos construimos um modelo económico baseado na procura do lucro através de organizações desenhadas e geridas para promover o interesse próprio dos seus donos e trabalhadores. Organizações essas que, quando operando num mercado concorrencial mas regulado, asseguram que as mais eficientes e eficazes soluções são adoptadas e crescem, conduzindo a uma melhor afectação de recursos da sociedade. Daí o conceito de “mão invisível” proposto pelo economista Adam Smith, a ideia que uma sociedade de indivíduos procurando o seu interesse próprio pode conduzir a um modelo eficaz que resolve os problemas da sociedade através da boa afectação e gestão de recursos escassos. O lucro empresarial serviria assim como uma “proxy”, uma aproximação ao valor criado na sociedade. Estas ideias motivaram a famosa frase no filme Wall Street: “Greed is Good” – a cobiça é boa para a sociedade e, mais importante, está na base do contrato social implícito entre as empresas e os Estados: as empresas têm autorização para maximizar o seu lucro, dentro do respeito das leis do Estado e regras de mercado, pois essa procura do lucro é no interesse da própria sociedade.

No entanto um sistema de mercado, mesmo que bem regulamentado de forma a evitar as crises financeiras como a que sofremos desde 2008, não é perfeito pois não consegue lidar de forma eficaz com áreas em que existam impactos positivos ou negativos das actividades económicas que não são capturados no momento em que uma transacção é acordada entre vendedor e comprador – as chamadas externalidades. Se ao produzir um produto químico o fornecedor está a poluir um rio e não incorpora esse custo social no seu modelo de decisão, então o preço de mercado não vai ser óptimo do ponto de vista social. Do mesmo modo o benefício social de uma vacina na prevenção de epidemias não é considerado no momento em que um indivíduo decide se vai comprar uma vacina, necessitando de existir intervenção do Estado para assegurar o óptimo social. O mesmo raciocínio se aplica à educação e justifica os subsídios do estado, fazendo a educação primária obrigatória e gratuita. A isto os economistas chamam externalidades negativas (no caso da poluição) ou positivas (no caso da vacinação ou educação).

Mas existem tantas áreas da nossa vida com estas “externalidades” que os Governos não conseguem abordá-las todas de forma sistemática, em particular quando afectam segmentos de população com menos visibilidade ou mais desfavorecidos. Alguns políticos e activistas sociais, como por exemplo a GreenPeace na área ambiental, preocupam-se em advertir a sociedade para algumas destas externalidades, em particular as que causam impactos negativos mais importantes. Mas muitas áreas de externalidades positivas são esquecidas pois resolvê-las implica não apenas mudar comportamentos negativos, mas também encontrar soluções inovadoras e sustentáveis que possam resolver problemas importantes da sociedade. Problemas como o desemprego de longa duração, o abandono escolar dos jovens, doenças pouco conhecidas que afectam populações desfavorecidas, o isolamento dos idosos e a obesidade infantil.

Como podemos reproduzir o fervilhão de experimentação de novas soluções e crescimento rápido daquelas que são mais eficazes, que torna os mercados uma ferramenta tão eficaz na resolução de problemas que possam vir a dar lucro?

A lógica do Empreendedorismo Social

Essa ferramenta descentralizada, dinâmica e poderosa é o empreendedorismo social e a forma como leva milhares de membros da sociedade a empreender, mobilizar, inovar, procurando ter impacto resolvendo problemas sociais profundos que os preocupam. Ao contrário dos empreendedores comerciais, a sua missão é a criação de valor e não a captura de valor (lucro). Como tal, actuam de maneira diferente, partilhando o que sabem, capacitando os seus parceiros e clientes, encontrando soluções partilhadas por todos. O seu objectivo não é a criação de uma organização que perdure no tempo, mas antes o desenvolvimento de uma solução que seja sustentável em termos da utilização de recursos, que seja escalável para outras geografias ou comunidades, e que aborde o problema de forma a atacar as causas profundas e não os sintomas, criando se necessário uma transformação social.

Ironicamente, o objectivo do empreendedor social deve ser tornar a sua organização obsoleta, ao resolver por completo o problema social, ou colocando a solução nas mãos dos agentes da sociedade (empresas comerciais, Estado ou sector social) mais capazes de o resolver em escala e de forma sistemática. Desta forma, enquanto o empreendedor comercial quer controlar a cadeia de valor de forma a tornar-se indispensável, o empreendedor social tende a criar cadeias de valor partilhadas e capacitar os seus parceiros para assumirem o controlo da solução ou de partes importantes dela.

Com a globalização, o uso de tecnologias de informação, e o emergir das rede sociais, qualquer solução inovadora pode ser facilmente partilhada com o Mundo e, se se revelar de facto eficaz (e aqui precisamos de aprender a medir o impacto social de forma mais sistemática), pode ser rapidamente disseminada pelo país e pelo mundo. Ou o próprio modelo de negócios pode ser concebido de raíz como um modelo em rede, caso da enciclopédia online Wikipedia e da rede de investidores em pequenos empreendedores Kiva.org.

Todos podemos ser empreendedores sociais

Por estas razões, o empreendedorismo social tem um potencial enorme de transformar o mundo. Não só se alicerça no mais profundo da Natureza Humana - o desejo de ajudar os outros, mas serve também como palco de experimentação de soluções inovadoras, as melhores das quais têm agora capacidade de crescer e se replicar. Veja-se o caso da Escolinha de Rugby da Galiza, modelo inovador de integração social de jovens de camadas económicas desfavorecidas, que após ter sido considerado boa prática de empreendedorismo social em Cascais, está já a conseguir replicar o modelo em mais de 10 municípios por todo o país.

Neste contexo, o empreendorismo social não se trata da criação de uma empresa com uma missão social mas sim do desencadear de um processo de inovação social. Um processo que pode acontecer no contexto de um serviço do Estado, de uma organização social, de uma empresa comercial ou através de uma nova iniciativa empresarial. O estudo dos empreendedores sociais portugueses levado a cabo pelo Instituto de Empreendedorismo Social em várias regiões de Portugal, verificou que a maior parte das iniciativas de excelência, como a Escolinha de Rugby da Galiza, tinham surgido como projectos criados no âmbito de organizações sociais já existentes.

Neste sentido todos nós podemos ser empreendedories sociais e participar neste movimento. Basta focarmo-nos num problema social que nos preocupa e que pensamos estar a ser negliengenciado pela Sociedade, e procurar soluções novas e eficazes para esse problema. Isto muito vezes involve experimentação e erro, preserverança, conhecimento e estudo do problema no terreno. Só assim se pode perceber as causas dos problemas e desenvolver soluções com profundo impacto na sociedade.

Um empreendedor social sozinho provavelmente não conseguirá melhorar o mundo de forma significativa. Mas um movimento global de milhões de empreendedores sociais, focados em áreas e soluções diferentes certamente o fará, especialmente se os outros agentes da sociedade - empresas, poderes públicos, sector social - reconhecerem, apoiarem e valorizarem o trabalho desses empreendedores, ajudando a crescer as melhores solucões e criando uma tónica de inovação social e mudança. Se isso acontecer, então tenho a certeza que o nosso Futuro será melhor que o Presente e que o sistema capitalista encontrará um modelo equlibrado e sustentável.

in Revista Impulso Positivo, Mar/Abr 2011