“A inclusão através da comunidade é possível”

O trabalho da LEQUE – Associação de Pais e Amigos de Pessoas com Necessidades Especiais foi distinguido com o Prémio Voluntário Jovem Montepio 2016. O Impulso Positivo aproveitou a ocasião para falar com Celmira Macedo, fundadora e presidente da LEQUE.

Impulso Positivo (I.P.): Quem é a LEQUE?
Celmira Macedo (C.M.): A Associação LEQUE é uma Associação de Pais e Amigos de Pessoas com Necessidades Especiais, fundada por mim em 2009. Tem como missão melhorar a qualidade de vida e o bem-estar físico e emocional de pessoas com Necessidades Especiais (NE - deficiência ou incapacidades) e suas famílias (cuidadores/as informais). Apostamos na promoção da inclusão social desta população, através da formação para a diversidade, desde o contexto familiar à sociedade em geral.
A LEQUE é uma IPSS (Instituição Particular de Solidariedade Social), sem fins lucrativos, desde 2010. Está sediada em Alfândega da Fé, desde setembro de 2010, tendo até ao momento 280 famílias associadas. A Associação LEQUE é a única resposta social da zona sul do Distrito de Bragança, cobrindo os concelhos de Vila Flor, Torre de Moncorvo, Mogadouro, Miranda do Douro, Freixo de Espada à Cinta, e Carrazeda de Ansiães. A Associação abrange uma área geográfica aproximada de 3.000 km2.
A forma de atuação, segundo os critérios de Qualidade EQUASS (Sistema de Certificação da Qualidade dos Serviços Sociais), já valeu à Associação alguns prémios de boas práticas sociais, a nível nacional. A análise SROI (Social Return of Investement) realizada pela Quotidian, a pedido da Fundação EDP, atesta que o Impacto Social da Associação LEQUE é de 2.45 € por cada euro investido.
Temos obtido uma boa cobertura mediática a nível regional e nacional, estimada em mais de uma centena de notícias, em todos os canais de comunicação (TVs, jornais, rádios, etc.).
Em todos os projetos dinamizados estão já envolvidas mais de 6000 pessoas.



I.P.: Como nasceu esta Associação?
C.M.: Desde 2006 e no âmbito da minha tese de doutoramento fiz um levantamento sobre as necessidades das famílias de pessoas com deficiência (Necessidades Especiais – NE), ou seja dos cuidadores/as informais, do distrito de Bragança (num número superior a 1000), onde constatei uma rede de suporte social muito deficitária:
- Falta de serviços de apoio e reabilitação para crianças, jovens e adultos com NE (86% );
- Falta de serviços de apoio a jovens adultos/as com NE, na promoção da formação profissional (86%);
- Problemas na inclusão das pessoas com NE no mercado de trabalho (48%);
- Falta de locais de animação sócio cultural para pessoas adultas com deficiência (97%);
- Falta de equipamentos sociais, que os possam albergar, por incapacidade da família (94%);
- Falta de Centros de Férias e Lazer (94%);
- Pouca informação disponibilizada às famílias sobre as problemáticas dos filhos/as, sendo esta essencial no processo de vivência do diagnóstico (96%).
- Falta de materiais lúdico-didáticos para trabalhar com os filhos/as, promovendo a sua aprendizagem e inclusão social (96%).
Perante esta triste realidade, fiz uma pausa na tese de doutoramento e iniciei um caminho de ajudar os cuidadores a melhorar a qualidade de vida dos filhos/as. Comecei por pressionar a comunidade (educativa, social e na área da saúde). Consegui, através da Sub-Região de saúde, em 2007, o reforço de técnicos nos Centros de Saúde (Psicólogos, Terapeutas, …) para o apoio a esta população.
Em 2009, início uma outra vertente deste projeto, formar as famílias com um modelo de formação parental inovador: ‘Escola de Pais.nee’ – Formação Parental na área da deficiência. O interesse e capacitação dos pais e mães envolvidos/as é de tal modo forte que, juntos, criamos em Junho de 2009 a Associação LEQUE, sob o prisma de ‘para um leque de dificuldades, juntos encontraremos um leque de soluções’. Desde então todos os projetos da Leque resultam de diferentes cursos de formação realizados na região.
Desde então, apostamos na promoção da inclusão social desta população, através da formação para a diversidade, desde o contexto familiar à sociedade em geral, através da dinamização de projetos inovadores e de empreendedorismo social, mas que resultem das necessidades e vontades das pessoas com deficiência ou das suas famílias.



I.P.: Olhando em retrospetiva os últimos sete anos de trabalho da LEQUE, quais foram as grandes conquistas para estes jovens especiais e para as suas famílias?
C.M.: O caminho foi muito duro, desde 2009, a Leque funciona sem acordos com a Segurança Social. Acreditamos que a situação deve ficar regularizada ainda este ano, mas para trás ficaram anos difíceis com muita luta, muitas dificuldades em suportar os custos com os recursos humanos (10 funcionários), mas nada nos impediu de concretizar os ‘pequenos grandes sonhos’ que tínhamos inicialmente. Queríamos ser uma lufada de ar fresco no terceiro sector e uma alternativa inovadora às Respostas Sociais de IPSSs já existentes. Eu não acredito na institucionalização, nem em ‘guetos’ logo as respostas sociais da Leque teriam de privilegiar a premissa da inclusão social das pessoas que dela necessitam. Das Respostas Sociais da Associação fazem parte:
- um Gabinete de Apoio à Família (único no distrito);
- um Gabinete de Formação (Escola de Pais.nee: Formação para a Parentalidade positiva na Deficiência”; Intervenção na Deficiência; Inovação e Empreendedorismo Social no Terceiro Sector; etc.)
- um Refeitório Solidário (Distribuímos 100 refeições/mês a famílias em situação de pobreza encoberta);
- um Centro de Atendimento, Acompanhamento e Reabilitação para 25 Pessoas com Deficiência (CAARPD), que agrega um conjunto de serviços até à data inexistentes na região para esta população: O CAARPD funciona quase no exterior e para o exterior. Os/As frequentadores/as (não gostamos de lhes chamar utentes ou clientes) estão integrados em Oficinas na comunidade (através de parcerias com empresas locais) de forma a promover sua a Inclusão Social e Laboral: Estética; Cabeleireira; Mecânica; Queijaria; Jardinagem/Agricultura; Culinária; Restauração; TIC; e Artes Criativas, etc.. Dispomos igualmente de serviços terapêuticos dinamizados para a comunidade: Na Associação, em Escolas ou nos domicílios (“Onde não há a Leque dá”, é o nosso lema e o distrito é vasto e existem concelhos sem qualquer oferta terapêutica: Reabilitação Psicomotora; Terapia Assistida por Animais (Hipoterapia, Asinoterapia); Balneoterapia; REIKI; Yoga; Terapia da Fala e Terapia Psicopedagógica.
- um Centro de Férias e Turismo Rural Acessível (aberto no mês de agosto, com serviço de 24h, a pensar no descanso e nas férias dos cuidadores/as informais, disponível para pessoas com NE de todo o país). Os filhos/as ou familiares ficam connosco e os pais ou cuidadores/as vão descansar…
- um ATL inclusivo para a Comunidade Escolar nas pausas letivas (Natal, Carnaval, Páscoa e Verão), onde se juntam crianças/jovens (com e sem NEE) e os frequentadores do CAARDP na realização de atividades conjuntas e inclusivas;
- Projeto com a comunidade Sénior ‘Aproximar avós transmontanos/as de netos/as emigrados/as através das TIC’;
- Projeto de Alfabetização inclusiva EKUI (www.ekui.pt). O EKUI – Equidade, Knowledge, Universalidade e Inclusão - representa uma linha de material lúdico/didático inclusivo, com uma linguagem universal e acessível a TODA a população - com leitura em Braille, Língua Gestual Portuguesa e Alfabeto Fonético. O ADN da marca EKUI destaca-se por garantir a equidade no acesso a bens e serviços de educação e reabilitação a TODOS/AS, ou seja alfabetizar e permitir a comunicação universal e acessível entre pessoas com e sem NEs. Entre Abril de 2015 a Setembro de 2016 já chegou a mais de 3000 crianças.



I.P.: O trabalho desenvolvido pela LEQUE tem sido premiado ano após ano por diferentes entidades. Recentemente a LEQUE foi distinguida com o Prémio Voluntário Jovem Montepio 2016, atribuído pela Fundação Montepio. Qual o impacto deste prémio na atividade da Associação?
C.M.: Este prémio é já o terceiro a valorizar a prática do voluntariado na Associação (1º foi em 2012 com a Fundação Manuel António da Mota; o 2º foi ganho por mim em 2014 – Troféu Português do Voluntariado e agora este de um dos nossos principais e mais queridas parcerias: a Fundação Montepio). Este prémio pretende incentivar a prática do voluntariado às camadas mais jovens da nossa comunidade e o objetivo, criar projetos inovadores, inclusivos e ao mesmo tempo autossustentáveis.
Os frequentadores assíduos do CAARPD (adultos com deficiências), são integrados em oficinas na comunidade, desde 2010 que esta é uma prática corrente na Associação, este prémio vem possibilitar que a oficina de jardinagem se alargue e possa ser uma fonte de autossustentabilidade e inclusão laboral dos frequentadores/as. Queremos que o ‘João’ deixe de ser visto como o ‘autista’ e passe a ser visto como o ‘agricultor’, que a ‘Dona Cristina’ possa ter o seu dinheiro para comprar o que quiser, sem ter de o pedir à sua cuidadora. Como? Pretendemos plantar ervas aromáticas e comercializá-las nos mercados regionais.



I.P.: Neste momento a LEQUE tem 280 famílias associadas e mais de 6 000 pessoas envolvidas nos seus projetos. Perspetivando o futuro quais os desafios que a LEQUE tem pela frente?
C.M.: Pretendemos ajudar a traçar o caminho da inclusão social, acreditamos na autodeterminação das pessoas com deficiência, mesmo estando integradas em IPSSs. As organizações sociais terão que assumir novas abordagens, novos percursos, novas práticas e sobretudo novas formas de ver a PESSOA com deficiência, identificada pela sua essência no seu todo, numa perspetiva holística e biopsicossocial. A primazia são as pessoas não as instituições.
O exemplo mais forte desta nossa força é o projeto Ekui. A inclusão através da comunidade é possível e quando as próprias pessoas com deficiência ou cuidadores/famílias não consigam estabelecer essa ponte, a responsabilidade de o fazer será nossa. De todos nós. Na Leque vamos continuar a dinamizar Oficinas de Inclusão na Comunidade, o que não é uma tarefa propriamente fácil, as mentalidades ainda se fecham muito ao diverso, mas é possível. Só assim acredito ser possível ir combatendo o estigma e o preconceito. Claro que todos estes passos implicam o estabelecimento efetivo de mais parcerias com a comunidade, que terá de ser mais permeável à inclusão da diversidade nas suas empresas e espaços comercias, etc.
É também imprescindível dinamizar a economia social despertando essa vontade nos investidores. Só assim muitos dos projetos da área social, alguns dos quais de grande valor e impacto social, poderão sair do típico death valley em que estão. No que se reporta à Leque e aos seus projetos, sabemos que temos valor, mas precisamos de incentivos, não de caridade ou assistencialismo. Acreditamos em empresas sociais e queremos ser uma.



I.P.: Quase a terminar esta entrevista gostava de ouvir uma opinião pessoal. Reconhece mudanças culturais e sociais na comunidade em geral? Considera que a sociedade está mais sensível às necessidades do outro?
C.M.: Acredito que o caminho se faz caminhando, quando iniciei estas questões em 2006 não se ouvia falar de deficiência. A Associação Leque foi pioneira ao longo destes anos, com alguns dos seus projetos, a levar a diferença para a comunicação social e desta para a comunidade, despertando consciências. Hoje já muito está a ser feito no nosso país, mas muito há ainda a fazer, o que só conseguiremos juntos: Pessoas com Deficiência, Cuidadores/as, sociedade civil, IPSSs; poder politico, os media, etc. Juntos. Coesos. Caso contrário comprometeremos o objetivo que todos queremos alcançar: a Autodeterminação da Pessoa com Deficiência, como um direito humano consagrado na constituição, não como um favor ou uma obrigação. Acredito também que a inclusão só se efetivará quando não tivermos de falar dela. A máxima “Não me falem de inclusão”, faz-me todo o sentido porque ela não se diz, faz-se. Todos os dias. E isso depende obviamente de cada um de nós, das nossas atitudes, da nossa abertura à mudança e da nossa vontade de assumir a diversidade como uma mais-valia. Parece difícil, mas isto educa-se, por isso acredito em projetos como o EKUI, que educam desde cedo para a diferença. Esse é o verdadeiro significado do termo “responsabilidade social”, esse será o verdadeiro caminho para uma sociedade mais justa, equitativa e solidária.

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