Intermediários: Um mal necessário ou Parte da Cadeia?

Por Karen Ferrez Frisch

Quando os pais decidem enviar os seus filhos para escolas de músicas, ninguém os questiona por que razões estão a contratar especialistas para apoiar a educação dos seus filhos. É aceite que os pais são os responsáveis pela educação dos filhos, mas que não têm tempo e/ou competências suficientes em todas as áreas do desenvolvimento infantil para dar todo o apoio que os filhos necessitam. Portanto, se uma criança quer tornar-se um músico, contratar um professor de violino faz sentido se queremos que este filho aprenda a tocar este instrumento.

O setor empresarial utiliza-se da mesma lógica. Uma empresa que produz alimentos não tem necessariamente competências especializadas nas áreas jurídica e financeira; portanto se quer rever os seus regulamentos, pode contratar a assessoria de um advogado, ou de um consultor financeiro no caso de necessitar de reestruturar as suas dívidas. Estas pessoas físicas e/ou jurídicas com competências específicas que apoiam empresas em áreas técnicas também são chamadas intermediários e têm a função de garantir que as empresas focam os seus recursos na sua área de atuação e que não os desperdiçam tentando aprender todas as áreas da gestão. Os Intermediários podem, portanto ajudar a cadeia de produção a tornar-se mais eficiente. O mesmo é válido para o setor governamental, onde intermediários podem apoiar o governo em questões técnicas (por exemplo na definição de leis ambientais) e de gestão (como por exemplo na avaliação das empresas do sector público).

Se nos dois setores acima descritos os intermediários são aceites como parte da cadeia de valor, no Terceiro Setor (ou comumente chamado Setor Social) português, os intermediários têm sido vistos como o intruso que quer tirar proveito das entidades sem fins lucrativos.

Existem poucas opções de organizações e programas em Portugal que apoiem a gestão das organizações sociais de forma pró-bono através de voluntários. Portanto, as entidades do Setor Social, tal como nos setores empresarial e governamental, se querem ter apoio nas diversas áreas de gestão têm que recorrer a intermediários que requerem ser remunerados para executarem este trabalho.

Alguns benfeitores empresariais, tais como o Montepio ou o BPI, reconhecendo esta necessidade de capacitação do Terceiro Setor e a falta de recursos financeiros por parte das organizações sociais, financiaram nos últimos anos o pagamento de intermediários, entidades credíveis especializadas em gestão, para capacitar as organizações sociais de forma a melhorarem a sua eficiência e eficácia.

Para além dos intermediários envolvidos na capacitação, existe um outro tipo de intermediários necessário para apoiar o desenvolvimento deste setor: os especialistas ou assessores, tais como advogados e consultores financeiros que cada vez mais são reconhecidos como necessários para tornarem mais eficaz este setor e o mercado emergente de empreendedorismo social.

Atualmente no setor português há dois grupos principais de intermediários:

·      O Tradicional: que tem apoiado a capacitação em gestão através de programas de formação ou projetos pontuais de consultoria e assessoria em áreas específicas de gestão e avaliação de impacto. Neste grupo podemos mencionar como exemplo a Tese, Stone Soup ou a Call to Action.

·      O Emergente: chamo-o de emergente por estarem a apoiar um mercado emergente de inovação e empreendedorismo social. Este tipo de intermediários apoiam as organizações a:

‒      Definirem novos projetos que se enquadram na definição de empreendedorismo social;

‒      Identificarem os possíveis mecanismos de financiamento;

‒      Acompanhar o projeto desde a negociação para garantir o seu financiamento, até à avaliação de impacto dos mesmos nos anos seguintes.

Neste grupo temos atualmente a Finance for Social Impact (FSI) e o Laboratório de Investimento Social.

O Portugal 2020, através da Portugal Inovação Social (PIS), corrobora na mudança de mentalidade que vem ocorrendo nos últimos anos, reconhecendo a necessidade da existência dos intermediários na construção da cadeia de valor do Terceiro Setor e alocando parte dos seus fundos para apoiar os dois tipos de intermediários na capacitação e desenvolvimento do mercado de inovação e empreendedorismo social. Adicionalmente, o PIS reconhece que para atrair um coinvestimento de grande volume para o Setor Social é necessário não apenas que as organizações sociais demonstrem as suas boas intenções aos investidores sociais, mas que também evidenciem que o retorno do investimento é atrativo para o potencial investidor. Como pode uma organização social com as lacunas em gestão fazer isto? Tendo o apoio técnico de um intermediário, que será pago neste caso pelo PIS e que fará a ponte entre a organização social e os investidores, apoiando na definição de possíveis acordos jurídicos e modelos financeiros que nortearão as relações entre as organizações sociais e os investidores, para que os acordos sejam equilibrados e benéficos para ambas as partes.

Ao longo dos séculos, os setores empresarial e governamental têm beneficiado de intermediários para colmatar as suas lacunas de competências e aumentar a sua eficiência; nos países anglo saxões o Terceiro Setor também tem beneficiado da intervenção dos intermediários há muitos anos garantindo o desenvolvimento salutar deste e dos demais setores da economia. Em Portugal, a integração dos intermediários na cadeia de valor do Terceiro Setor ajudará o setor a reforçar a sua gestão de forma a torna-se mais eficiente e capaz de ampliar o seu impacto social tão necessário na nossa sociedade.