"Isto é muito maior que nós e deve ser partilhado"

“Nascemos para dar, e se formos generosos e gratos, a vida recompensa-nos em dobro”. As palavras de Célia Oliveira podiam ser as palavras de mais de 1 bilião de pessoas que são voluntárias em todo o mundo. No mês em que se assinala o Dia Internacional do Voluntariado, o Impulso Positivo quis conhecer a experiência de Célia Oliveira e o trabalho da Missão Dulombi, na Guiné.


Impulso Positivo (I.P.): De Vila do Conde para a Guiné-Bissau. Desde 2012 este tem sido o trajeto da Missão Dulombi. Como nasceu este projeto?
Célia Oliveira (C.O.): Tudo começou pela mão de dois primos malucos (Gil e Ricardo Ramos) que se lembraram de ir de carro até à Guiné, conhecer a aldeia onde o pai de um deles tinha estado em serviço militar. Foram sozinhos sem conhecer absolutamente nada. Foi uma grande aventura, nada fácil, mas não há nada que assuste ou desmotive aqueles dois.
Não me canso de os ouvir a contar as peripécias, as dificuldades, e a alegria de terem conseguido regressar de Dulombi sãos, salvos e sem um tostão. Foi com essa determinação que decidiram criar a Missão Dulombi, para poderem apoiar de alguma forma aquele povo que tão bem os acolheu. Ficaram chocados com o que encontraram, e voltaram para casa cheios de ideias para salvar África! Depressa perceberam que ninguém precisa de ser salvo, que as diferenças culturais são para respeitar, não podemos impor os nossos ideais, e que simplesmente oferecer coisas não vai tirar ninguém da pobreza. Isto foi, é e será sempre a grande Missão, perceber e respeitar a cultura local.


I.P.: Qual é o principal objetivo da Missão Dulombi?
C.O.: O objectivo da missão é ajudar ao desenvolvimento de Dulombi, dando à população a responsabilidade, ao invés de apenas dar... não somos o pai natal, e a ideia é ajudar a comunidade a tornar-se auto sustentável.
As estadias lá são curtas, e são os habitantes que mantêm o trabalho a decorrer entre viagens. Queremos criar uma metodologia que se possa replicar noutras aldeias, com o objectivo de tornar as comunidades auto sustentáveis.
Estamos a tentar desenvolver uma horta comunitária, é uma terra muito muito fértil, mas cultiva-se muito pouca variedade de comida... levámos sementes e andamos a tentar perceber o que resulta lá ou não. Até as sementes são difíceis de arranjar lá.
Depois de mais de 10 expedições já conseguiram construir um jardim de infância, uma casa para voluntários permanentes e quatro casinhas para quem queira passar uma temporada em Dulombi, para conhecer e participar nos costumes e rotinas. Durante este tempo foram fazendo obras de recuperação no hospital de Galomaro (a vila mais próxima), na escola, e outros locais, deixando também ajudas materiais em cada viagem, como materiais hospitalares que lá são de muito difícil acesso ou nem existem, e material escolar que muitas famílias não têm possibilidades de adquirir, bomba de água para o poço.
Toda a intervenção é feita a um ritmo muito próprio, respeitando acima de tudo a cultura local, muito à base de tentativa erro, tudo muito experimental e sem grandes planos a longo prazo, porque sabemos que há sempre ajustes a fazer. Queremos melhorar sim, mas com o mínimo impacto cultural.
A verdade é que há coisas inquestionáveis, como os direitos humanos, o acesso à saúde, à educação, água potável, educação ambiental, e numa visão alargada é nesse nível que tentamos ter uma intervenção.


I.P.: Recordando as primeiras expedições quais foram as principais dificuldades com que se deparou à chegada?
C.O.: A primeira viagem que fiz com a Missão foi à Mauritânia. Numa das viagens eles conheceram um dos muitos guias que ganham a vida na fronteira de Marrocos, a terra de ninguém, que ao perceber que iam em missão humanitária os convidou a conhecer o orfanato onde é responsável. Uma casinha partilhada por cerca de 20 crianças e uma “mãe” dedicada exclusivamente à causa. Uma casinha onde às vezes se abre a porta e está um bebé que alguém não conseguiu cuidar. Há sempre espaço para mais um, mas a despensa continua vazia. Em todas as viagens fazemos um desvio por lá, para deixar a despensa cheia de comida e papas, para ir aguentando as barriguinhas por mais uns tempos. É o melhor que podemos.
Na minha segunda e terceira viagem fui até à Guiné Bissau. Dulombi fica a uns 40kms de Bafatá, a cidade grande mais próxima. 40 kms de mato cerrado que demoram mais de duas horas de carro, se tudo correr bem. Não há eletricidade e a rede de telemóvel só num ponto especifico. A água tira-se do poço com balde, e daí se cozinha, se toma banho, se lava a louça e a roupa. Nada disto me causou estranheza, pelo contrário. Adaptei-me imediatamente. As crianças são às dezenas, seguem-nos para todo o lado, os mais pequenos tocam-nos porque nunca viram um branco. Todos nos querem dar a mão, todos querem brincar e mostrar habilidades. Nenhum fala português que se perceba, apesar de aprenderem na escola. A comunicação é muito mais profunda. É lindo. Ali ficamos alojados nas nossas tendas, no meio da aldeia a partilhar espaço com os patos, vacas e cabras que passeiam soltas. A população já conhece bem o trabalho do Gil e do Ricardo, respeitam-nos e idolatram-nos. Sabem que vamos ali para ajudar. As pessoas são felizes ali. Vivem da terra e são todos família, ajudam-se mutuamente. A única coisa que me arrepiou na Guiné foi o hospital, que visitei um ano depois de a Missão ter feito obras de recuperação. Nem sei como seria antes.



I.P.: Entre os anos de 2012 e 2016 a Missão Dulombi já completou dezenas de expedições humanitárias. Atualmente quais são as grandes prioridades?
C.O.: Queremos colocar lá voluntários a título permanente, que fiquem responsáveis pelo jardim de infância, onde as crianças (que atualmente passam o dia umas com as outras) possam ter contacto com a Língua Portuguesa, que apesar de ser a língua oficial do país, mal se fala nos meios mais pequenos. O Professor que também não domina a língua ensina as crianças a ler “de cor”, nunca chegam a entender o português, reprovam anos a fio, os pais desistem de pagar a escola, ficam por ali os estudos.
Procuramos também alguém com algum conhecimento na área de saúde, para dar apoio e sensibilização, já que se regem muito pelas mezinhas tradicionais e adiam ao máximo qualquer ida ao médico, muitas vezes o resultado não é o melhor.
Aconselhar as pessoas a cuidar das suas economias... por exemplo, quando têm muita produção vendem tudo aos grandes negociantes por meio tostão, depois acabam por ficar sem nada para eles e têm de comprar ao triplo do preço. Alguém que lhes explique que não se podem vender árvores e florestas centenárias aos madeireiros chineses que andam a sugar o que resta do país. Que os sensibilize que a sua terra é mais importante que o (injusto) valor que vão ganhar. Dar-lhes o direito à educação que nunca tiveram.


I.P.: A partir da sua experiência enquanto voluntária da Missão Dulombi, considera que existe um crescente apoio dos países ricos aos países pobres ou sente um certo distanciamento?
C.O.: Eu acho que o principal problema destes países é a corrupção no poder, e nem tanto a falta de apoio. A Guiné é um país pobre, mas o dinheiro que existe não é usado da melhor forma, e a verdade é que se estão pouco importando para a população. Dulombi fica no interior remoto do país, numa zona de mato bastante isolada, que só é lembrada em altura de eleições, com cartazes pregados nas árvores pela aldeia. Pela falta de formação, aceitam apenas o que alguém lhes diz sem questionar, sem investigar, e assim se explica porque o estado não tem qualquer interesse em dar uma boa educação a estas pessoas.
Entretanto, por cá alimenta-se a ideia de que “eles” são preguiçosos, vão ser sempre pobres porque não querem trabalhar, que é a cultura deles. A verdade é que o povo é explorado até ao tutano. As grandes produções de caju são levadas por capitalistas por valores ridículos, as florestas vão aos poucos sendo abatidas, camiões carregados de troncos com metros de diâmetro, é uma dor de alma. E não há ninguém que defenda os mais pobres.


I.P.: Em Portugal a sociedade está mais consciente da importância do voluntariado?
C.O.: Quando regressamos há uma vontade visceral de não deixar o projeto, de continuar em contacto e espalhar a mensagem. De início ficava um bocadinho reticente, nunca gostei de ouvir pessoas a dizer que fizeram voluntariado, mas depressa percebi que é mais importante que a mensagem se espalhe, e que isto é muito maior que nós e deve ser partilhado. E vou percebendo que há muita muita gente com vontade de fazer algo do género. As minhas experiências foram sempre tão boas que creio que deram um empurrãozinho a outras pessoas que já foram depois de mim. Há sempre a ideia de que é muito complicado e perigoso, e é bom termos alguém próximo que desmistifique isso. Hoje em dia todos os meus amigos me vêm falar de voluntariado em África, seja por uma notícia que viram ou porque alguém que conhecem vai, querem saber mais pormenores, ou querem entregar-me bens, e isso é lindo.


I.P.: Há momentos e pessoas que por algum motivo acrescentam algo às nossas vidas. Até agora o que a marcou mais?
C.O.: Toda a experiência nos marca para sempre. A viagem só por si é muito intensa, as primeiras vezes que fui não conhecia ninguém, e fiz amizades para a vida. Marcou-me a generosidade das pessoas. Do pessoal médico do hospital. Eles vivem a 10 passos do hospital, literalmente, estão disponíveis 24 horas por dia e com as condições que têm fazem verdadeiros milagres. Inúmeras vezes pagam do bolso deles os tratamentos das pessoas que não têm possibilidades. Lembro-me com muito carinho de um senhor muito debilitado que visitávamos no hospital, com uma infecção pulmonar que se suspeitava ser tuberculose, e oferecemos os medicamentos que ele não conseguia pagar, sete euros e meio. Uns dias mais tarde já estava de pé, tinha lavado e estendido a sua roupa, muito organizado à espera do dia em que pudesse voltar para a sua horta que precisava de ser regada... quando nos despedimos, depois de agradecer mil vezes, abraçou-me e disse com a mão no coração, “vais ficar aqui para sempre”. Este tipo de situações fazem-me pensar mais no meu modo de vida, simplificar, trocar prioridades, e agradecer todos os dias por estas aprendizagens.




I.P.:Depois de uma missão, quando regressa a casa, do que sente mais saudades?
C.O.: Da vida simples e tranquila no meio da natureza, dos dias terem muito mais de 24 horas, da falta de coisas, do silêncio e dos ritmos africanos, da leveza e alegria das pessoas, dos sorrisos, de andar descalça, do céu estrelado, das fogueiras à noite, dos cheiros, dos animais à solta, do engraçado que é ver coisas novas todos os dias e estranhamente se tornam naturais. Da falta de eletricidade, de rede, de tudo, que torna a experiência tão mais intensa, tão mais simples e verdadeira. Focamo-nos só naquilo que realmente importa, nas pessoas, na nossa missão ali.
Vou procurando manter essa sensação aqui. Já percebi que sou feliz quando me dou, quando me entrego a algo, a uma causa, seja ela qual for. Acho que nascemos para dar, e se formos generosos e gratos a vida recompensa-nos em dobro.