A jornalista que ajuda a salvar crianças da escravatura

Em 2007, a viagem ao Gana para uma reportagem sobre escravatura Infantil, marcou a jornalista Alexandra Borges para sempre. O que viu não a poderia deixar indiferente. Criou a Associação Filhos do Coração e hoje já resgatou, em parceria com a ONGD americana Touch a Life Kids, 95 crianças.

 

Impulso Positivo (IP): Como nasceu a Filhos do Coração?

Alexandra Borges (AB): A génese da Associação foi uma grande reportagem da TVI, em 2007, sobre escravatura infantil no Gana. Na altura, fiquei muito impressionada com aquilo que vi, nomeadamente com o facto de ver crianças de 3 e 4 anos a trabalhar na pesca, algumas visivelmente maltratadas, e estar num lago no qual habitam milhares de crianças e haver um silêncio assustador, não se ouvir o barulho da infância. Foi então que comecei por resgatar 3 crianças. Hoje, em parceria com a ONGD americana Touch a Life Kids, temos 95 crianças resgatadas à escravatura infantil.

  

IP: Quais foram os grandes marcos atingidos ao longo destes 9 anos de vida?

AB: Conseguir o estatuto de IPSS reconhecido pelo Ministério do Trabalho e da Segurança Social e o estatuto de ONGD, pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros foram marcos importantes para o reconhecimento da Associação. Mas o maior marco de todos foi conseguir resgatar alguns sorrisos a estas crianças que nos chegam altamente traumatizadas e que, aos poucos, com a ajuda da Terapia pela Arte, recuperam a infância que lhes roubaram ao longo dos anos.

 

IP: Quais são as grandes dificuldades e frustrações?

AB: Não poder estar perto delas e assistir ao seu crescimento de perto.

 

IP: Quais são os principais projetos da Filhos do Coração e como funcionam?

AB: O nosso principal projeto passa por assumir as despesas de educação destas crianças porque acreditamos, sinceramente, que a educação é a porta para a liberdade delas. Nesse sentido desenvolvemos anualmente iniciativas de angariação de fundos de forma a conseguirmos cumprir esse objetivo. Já editámos dois livros, já produzimos um CD e, recentemente, organizámos a Gala Resgate Sorrisos na Alfândega do Porto e um Leilão Solidário com quadros pintados em conjunto por crianças resgatadas à escravatura e artistas plásticos portugueses que decorreu no nosso site oficial, www.filhosdocoracao.org.

 

IP: A Gala Resgate Sorrisos foi um sucesso. Quais eram os grandes objetivos?

AB: O principal objetivo era conseguir angariar dinheiro para pagar a educação destas crianças no ano letivo de 2016/17. Entre entradas na Gala, doações e venda de produtos associados à Associação, como o livro “Resgate”, escrito por mim e pela minha sobrinha a propósito de uma viagem ao Gana em 2009 na qual resgatámos mais 10 crianças; a vela Filhos do Coração, da Candle In, que continua disponível nas lojas da marca, e cujo valor de venda reverte na totalidade para a causa; e a coleção de joias exclusiva “Resgate de Sorrisos” criada por Eugénio Campos, composta por colar, pulseira e alfinete de lapela, disponível nos representantes da marca, em que 5 euros do valor de venda revertem para a Associação, conseguimos angariar 70 mil euros.

 

IP: Que balanço faz desta Gala?

AB: A Gala Resgate Sorrisos foi um marco na vida do nosso projeto porque foi uma oportunidade única de dar a conhecer aquilo que temos andado a fazer, há 9 anos, com o dinheiro que as pessoas têm doado. Para além de termos resgatado até ao momento 95 crianças vítimas da escravatura associada à pesca no Lago Volta, já construímos uma escola no Centro de Acolhimento de Kumassi onde, neste momento, estão a aprender inglês 25 crianças que nos foram entregues pela segurança social do Gana. Para nós é fundamental que os portugueses saibam onde gastamos cada cêntimo angariado.

 

IP: Quais são os objetivos futuros, a curto e médio prazo da Filhos do Coração?

AB: Em 2007, quando fui pela primeira vez ao Gana, havia milhares de crianças escravas a trabalhar 14h por dia, 7 dias por semana e a lei contra a escravatura, apesar de existir, não estava “implementada”. Hoje, já há várias ONGD’s no terreno a combater este flagelo, há pescadores e traficantes presos e o presidente do Gana criou um Ministério da Mulher e da Criança. Internacionalmente, estive nas Nações Unidas a falar desta questão e denunciei o caso à Human Rights Watch e à Save the Children. Isto para explicar que quando acreditamos numa coisa e lutamos por ela conseguimos fazer a diferença! A médio prazo gostávamos de conseguir avançar com um projeto de bolsas de estudo para crianças portuguesas necessitadas porque, mais uma vez, aquilo que de mais valioso podemos dar a uma criança e que a irá diferenciar para o resto da sua vida é a educação.