Negócios Sociais: saber acompanhar novas realidades

O Padre Samuel Guedes está à frente do Complexo Paroquial de Ferreira, Arreigada e Frazão. Quando chegou, há 20 anos, não havia nada, apenas as Igrejas e pouco mais. Começou por criar as estruturas que lhe permitissem desenvolver o seu trabalho pastoral e social. Hoje, existe também um negócio social de sucesso. O Impulso Positivo foi conhecer Sabores Paroquiais.

 

Impulso Positivo (IP): Que realidade encontrou quando chegou há 20 anos?

Padre Samuel Guedes (PSG): Quando cá cheguei havia apenas a igreja de cada comunidade. Não haviam IPSS nem estruturas físicas, fui eu que as fundei e criei. Foi então que criámos os espaços de apoio à vertente pastoral e entendemos que devíamos ter também uma vertente social porque estas comunidades não tinham nada. Criámos uma IPSS associada a cada paróquia com Centro de dia, Apoio domiciliário, Centro de Convívio e ATL. Na altura não se pôs a hipótese de se criarem valências que servissem ao mesmo tempo as 3 comunidades, porque apesar da distância máxima entre elas ser de sete quilómetros, as vias de comunicação não eram tão fáceis.

 

IP: Hoje, como funciona o Complexo?

PSG: A realidade hoje é outra, temos muitos serviços partilhados até porque com o tempo fomos unindo as IPSS. Neste momento, juridicamente são distintas mas atuam em complexo, daí chamarmos-lhe complexo inter-paroquial de Arreigada, Ferreira e Frazão e servimos aproximadamente 500 utentes. Temos colaboradores comuns, serviços comuns. Essa comunhão foi surgindo há medida das necessidades e por isso a relação que nos une é muito mais do que uma parceria. Provavelmente este ano iremos fundir o Centro de Arreigada com o Centro de Frazão. As Freguesias de Arreigada e Frazão uniram-se, então faz todo o sentido que nós próprios comecemos a atuar em conformidade. Para além disso, assim é possível aproveitar melhor os recursos financeiros e humanos, já para não falar de que haverá menos burocracia, menos contas e menos papéis. Portanto, o que temos vindo a fazer é responder à realidade do momento, tendo em vista o nosso futuro.

 

IP: As preocupações sociais também se mantêm?

PSG: Para além das preocupações mais comuns de apoio à comunidade que sempre tivemos, hoje, a participação na Economia é um dos objetivos que levou à criação da marca Sabores Paroquiais. Se as minhas comunidades paroquiais estão na sociedade e têm um sinal a dar, e ao mesmo tempo beneficiam da sociedade porque é que não havemos de dar também o nosso contributo? O que fazemos é pouco mas estamos lá.

 

IP: Como surgiu a ideia de criar um negócio?

PSG: A ideia surgiu porque consideramos que as IPSS têm de se restruturar de maneira a não serem subsídio-dependentes, que era o caso do Complexo que vivia dos acordos de cooperação, dos eventos e das doações. Começámos a ver que o modelo começa a não funcionar. Primeiro, há cada vez menos eventos, as pessoas não aderem por não terem dinheiro para dar, depois mesmo quando há não têm capacidade para doar tanto. Os eventos são uma prática comum aqui, até porque as pessoas gostam e estão habituadas mas já não conseguimos angariar tanto dinheiro. É importante que as IPSS, e digo também as estruturas eclesiais, comecem a pensar em formas de sustentabilidade. Queríamos cuidar do futuro das nossas IPSS. Segundo, era preciso pensar em algo que fosse bem-sucedido e que tivesse pernas para andar.

 

IP: No que é que se traduziu esse objetivo?

PSG: Num serviço de catering e numa pequena unidade industrial de produção de queijo de leite de vaca, produção de biscoitos e bolachas tradicionais, doçaria de conservação, licores, doces e compotas.

 

IP: Como é que se lembrou de produzir queijo?

PSG: Paços de Ferreira tinha uma estação de laticínios que ensinava a fazer queijo. Grande parte dos produtores das grandes marcas de queijo em Portugal, aprenderam a fazer queijo aqui. Este é considerado o melhor queijo do país. Há cerca de 10 anos atrás a estação de laticínios fechou e ficou a saudade do queijo que era muito bom. Este queijo não estava no mercado porque se tratava de uma escola mas era conhecido de todos os que passavam na região. Foi assim que me lembrei de ir buscar o mesmo know-how, procurei quem lá trabalhou e em regime de voluntariado ensinaram os colaboradores do Complexo. Comecei a produzir o mesmo queijo com as mesmas receitas do que era produzido em Paços de Ferreira. Agora já temos algumas novidades, como o queijo com presunto, o queijo com orégãos e o queijo com salmão fumado. Aquilo que começou por ser uma brincadeira, numa bacia no Centro Social começou a ganhar forma, quem provava incentivava-nos a continuar, concorremos a fundos comunitários e hoje em dia estamos com uma produção diária de cerca de 1000 litros diários. Graças a isso, empregamos oito pessoas que estavam desempregadas porque entendemos que nesta estrutura social devia haver esta valência de criação de emprego que hoje é tão ou mais importante que uma valência como um Centro de dia. Tudo isto em 2 anos.

 

IP: A produção de queijo também já deu origem a outras produções.

PSG: Primeiro foram os queijos e por causa dos queijos, no Natal, quisemos criar cabazes e vieram as bolachas e as compotas. A produção destes dois produtos está muito ligada à tradição religiosa e muito concretamente conventual e quisemos dar-lhe esse "toque", daí também o nome Paladares Paroquiais. Neste contexto, futuramente temos já pensada uma parceria para uma nova marca de Cerveja artesanal.

 

IP: Como tem crescido o negócio?

PSG: Vendemos queijos à nossa porta, depois temos cerca de 55 clientes em vários pontos do país, desde Braga, Porto, Amadora, Marinha Grande, e já exportamos para a Suíça e Luxemburgo. Em relação ao serviço de catering este serve cerca de 960 refeições diárias, para os próprios Centros sociais e outras IPSS que pedem os serviços, e ainda para as escolas primárias que estão inseridas no nosso território de atuação. O serviço de catering está também associado a uma preocupação de alargar a economia de escala e de reciclagem dos subprodutos do tipo 3, contamos com uma produção agrícola de legumes e vegetais, com produção em estufa e ao ar livre, recria de suínos, bovinos e leporídeos, devidamente licenciada, obtendo certificado de criador. Toda esta produção é utilizada na confeção das refeições do catering.

 

IP: Quais as perspetivas de crescimento?

PSG: Do ponto de vista social temos em vista a construção de um lar que agora é a nossa grande meta. Na área empresarial, queremos aumentar o espaço e a produção dos Paladares paroquiais, no caso do catering com a abertura de um takeaway dirigido à população em geral, e no caso da queijaria, criar um novo espaço para ampliarmos a produção.