No poupar é que está o ganho

“Em poupar é que está o ganho”
Eficiência energética e a utilização racional da energia
João Paulo Rocha, Eng.º Técnico de Electrotecnia, Licenciado em Sistemas de Energia pelo ISEP
joao.rocha@sincrono.pt, www.sincrono.pt

Ser uma organização sem fins lucrativos, de solidariedade social ou não, não nos impede de tentar procurar rentabilizar os recursos disponíveis, e assim aumentar a disponibilidade para intervir em prol da causa comum. Com este propósito, vamos lançar aqui algumas ideias sobre como utilizar racionalmente a energia.
“Nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”. Eis aqui o ponto de partida da essência da vida. Actualmente é cada vez mais imperativo utilizar bem os recursos, uma vez que estes são escassos, incluindo os apoios que, com a conjuntura socioeconómica, estão a diminuir, estando as necessidades a aumentar.
Um dos aspectos que intervém na Lei de Lavoisier é a energia, estando esta constantemente sujeita a um processo de transformação. Por exemplo, para a redacção deste artigo necessitei de tomar o pequeno-almoço, consumindo a energia dos alimentos que, através do processo orgânico de metabolismo, me proporcionou capacidade (energia) para escrever.
O que me proponho neste artigo é tentar apresentar algumas linhas de actuação de forma a que as organizações possam reduzir os consumos de energia na sua actividade e assim cativar mais recursos para alargar o seu campo de intervenção.
O enfoque deste artigo vai ser nos aspectos ligados à exploração dos edifícios. Assim, numa primeira fase, há que ter em atenção dois vectores distintos, por implicarem intervenções diferenciadas: Novos edifícios e Edifícios existentes. Nos “existentes” poder-se-á ainda estabelecer dois sub-vectores: Edifícios existentes em exploração; e os existentes a remodelar. Vamos debruçar-nos sobre os edifícios existentes, porque são aqueles em que podemos ter resultados imediatos e os que possuem mais carências.
A linha de orientação é simples: de onde vimos e para onde vamos. Neste conceito temos que analisar como chega até nós a energia e de que forma é que é consumida. Este processo é análogo ao transporte de água, isto é, recolhemos a água para saciar a nossa sede e transportamo-la num meio (garrafão ou canalizações) até à mesa, onde a utilizamos para a beber. Facilmente se percebe que se o meio de transporte (garrafão ou canalizações) apresentar fugas, ao bebermos não o fazemos de forma adequada, o mais certo é desperdiçarmos o precioso líquido.
O sistema energético nos edifícios consiste também nestas três fases: Fornecimento, Distribuição e Consumo.

FORNECIMENTO
Actualmente são várias as fontes da energia que nos chega, porém as mais relevantes são as seguintes: Electricidade e Combustíveis sólidos, líquidos e gasosos. Para além destas fontes de energia há que considerar a que nos chega gratuitamente, por exemplo a energia solar (sol) eólica (vento), terra (geotérmica), etc. No entanto, as fontes que nos pesam nos encargos são realmente a electricidade e os combustíveis sólidos, líquidos e gasosos. Quanto às outras, vamos verificar onde podemos delas retirar vantagens.
Uma das primeiras medidas a tomar é avaliar se o contrato de fornecimento de energia está coerente com as nossas necessidades. Assim, e uma vez que a minha especialidade é electrotecnia, vou focalizar-me nas recomendações nesta área:
1. Consultem os operadores do mercado livre de fornecimento de energia;
2. Verifiquem se a potência contratada está ajustada ao consumo;
3. Verifiquem se o regime tarifário é o mais adaptado.
Actualmente há vários operadores na área de energia. Os mais divulgados e que competem nesta área são a EDP Corporate, a Endesa e a Iberdrola. No sítio da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE) poderá obter os contactos destes operadores e também para outras fontes de energia, como por exemplo o gás. Neste sítio também está disponível uma ferramenta para simulação dos consumos onde, actualmente, apenas poderá verificar qual o melhor tarifário no serviço da EDP universal.
Da experiência neste processo tenho verificado ganhos na ordem dos 5%. Alerto para que o processo seja efectuado com as cautelas habituais, como por exemplo:
1. Na consulta enviar os consumos do último ano económico;
2. Analisar o modelo de contrato apresentado pelos operadores, e ter em atenção o processo de revisão de preço, que deverá ser no mesmo período de renovação do contrato;
3. Depois de receber as propostas, solicitar revisão da proposta de acordo com modelo resultante da análise das proposta recebidas (Caderno de Encargos);
4. Análise final das propostas.

DISTRIBUIÇÃO
A fase de Distribuição compreende a recepção de energia do operador público (EDP) e a entrega no local de consumo (equipamentos), e é constituída pelos seguintes equipamentos: Transformadores de potência normalmente designados por Posto de Transformação (apenas quando a instalação é alimentada em média tensão); Quadros Eléctricos; e Condutores (cabos eléctricos).
Na distribuição o principal desperdício é provocado pelo aquecimento dos equipamentos, uma vez que este aquecimento não se destina a gerar calor, e não há reaproveitamento deste calor para outros fins. O calor desperdiçado é um produto da resistência eléctrica do material condutor – R, pelo quadrado intensidade de corrente – I, quando esta atravessa o condutor eléctrico. Assim, o desperdício é uma função de variação quadrática da intensidade de corrente – I. Facilmente se entende que a diminuição dos desperdícios é tanto mais eficaz, quanto mais se reduzir a resistência eléctrica e principalmente a intensidade de corrente – I.
Um primeiro aspecto a considerar é a qualidade de energia fornecida e mais concretamente a tensão de alimentação. O valor de tensão de alimentação está fixado nos 400 Volts com uma dada tolerância. O que se tem verificado é que quando as instalações são alimentadas em média tensão, e consequentemente dotadas de Posto de Transformação do Cliente, é possível ajustar essa tensão para um patamar mais elevado. Como a energia consumida é constante e é função da potência e como esta (a potência) é o produto da tensão pela intensidade, se se aumentar a tensão e como a potência se mantém constante, então a intensidade da corrente diminui. Logo reduzimos as perdas por aquecimento.
Um segundo aspecto consiste em diminuir a resistência dos condutores. Numa instalação existente esta intervenção deverá ser avaliada através de um estudo de viabilidade técnico- económico porque tem uma maior envolvência na instalação.

CONSUMO
Nesta fase estão incluídos os equipamentos que utilizam as energias para as transformar em outras formas de energia, como por exemplo: Caldeiras, Bombas de Calor, Lâmpadas, Bombas hidráulicas, etc. De uma forma geral a importância destes equipamentos para a factura energética de um edifício é a seguinte: Climatização 40%; Utilitários 30%; Iluminação 15%; Outros equipamentos 15%.
A intervenção nesta fase tem basicamente dois vectores - Equipamentos eficientes e Utilização adaptada à sua função, e incluiem medidas de dois tipos, activas e passivas. As medidas activas consistem em utilizar novos equipamentos, que muito embora diminuam o consumo de energia, continuam a consumi-la. As medidas passivas consistem em instalar equipamentos ou sistemas que na sua vida não consomem qualquer forma de energia.
São exemplo de medidas activas: Remodelação de equipamentos e sistemas por outros mais eficientes, aproveitamento de resíduos de exploração das instalações, automatização do funcionamento de sistemas de grande consumo e permanente. São exemplo de medidas passivas: Instalação sistemas que contribuam para melhor desempenho do edifício, aproveitamento de recursos naturais para o funcionamento do edifício.
A aplicação de qualquer destas medidas implica avaliar o seu impacto em várias áreas, económica, ambiental e social. Como em tudo, não há receitas mágicas, mas um princípio básico é actuar nos sistemas que mais contribuem para os consumos.
Apresento em seguida algumas medidas que contribuirão para a redução da factura de energia nos edifícios:
1. Quando o sistema de produção de água quente se baseia na acumulação de água, verificar se esta acumulação não acarreta consumos permanentes que possam ser eliminados por sistemas de produção instantânea de água quente. Alguns casos onde se pode aplicar esta medida são os balneários, que têm um consumo de água quente não uniforme ao longo do tempo.
2. O aproveitamento do calor produzido pelo sistema de refrigeração para aquecimento de água é outra medida a estudar.
3. Substituição de sistemas de climatização com um longo período de vida por outros mais eficientes. Os existentes, para além de consumirem mais energia, têm demonstrado necessidade de trabalhos de manutenção.
4. Substituição dos sistemas de iluminação, que nos últimos tempos têm sofrido grande desenvolvimento tecnológico, quer ao nível de lâmpadas, quer de equipamentos auxiliares, como por exemplo: lâmpadas do tipo incandescente por fluorescentes com as mesmas características; Balastros ferromagnéticos por electrónicos;
5. Aplicação de equipamentos de maior rendimento que diminuam a potência instalada;
6. Outra medida que se tem revelado de grande eficácia é a implementação de sistemas de comando automático que garantem o funcionamento dos equipamentos apenas quando estes são realmente necessários. Um exemplo de aplicação desta medida é instalação de sensores de presença no comando de sistemas de iluminação, climatização e ventilação.
7. Ainda na automatização, a instalação de sensores que analisem as necessidades do edifício, como por exemplo temperatura e níveis de iluminação, e actuem automaticamente nos respectivos sistemas por forma a disponibilizar os parâmetros adequados.
8. Outro principio que tem revelado resultados interessantes, designadamente na conservação de energia, é o melhoramento dos sistemas de isolamento térmico dos edifícios. Este melhoramento é obtido com instalação de revestimentos de fachadas e coberturas mais eficientes, como é o caso do capoto. Estes sistemas, como facilmente se entende, diminuirão as perdas térmicas.
9. Aliado ao melhoramento do isolamento térmico também está o controlo da exposição solar dos edifícios, de forma a possibilitar o aproveitamento de iluminação natural e evitar a radiação solar, que provoca aquecimento para além do necessário. Como exemplo da aplicação desta medida, temos a colocação de barreiras solares, normalmente designados por elementos sombreadores de fachadas.
10. Uma outra medida que poderá conduzir a bons resultados é efectuar campanhas de sensibilização, junto dos utilizadores, para o uso racional dos recursos. Nestas campanhas é determinante apresentar o estado actual dos consumos e apontar os objectivos atingir.

A articulação das várias medidas devem sempre ser orientadas por um estudo de viabilidade técnico-económico e, se possível, por uma auditoria energética. Em complemento verifica-se ainda existirem programas de apoio e incentivos públicos para aplicação das medidas com o objectivo da eficiência energética.