“O problema no Mundo é a escassez de partilha”

Uma manhã, Benita Matofska acordou e pensou: “É isso! O problema no mundo é que existe uma escassez de partilha!”. Mas pensou também que é possível dar resposta a esta escassez. Uma das maiores dinamizadoras da economia de partilha no Reino Unido e uma ativista acérrima, em todas as dimensões da sua vida, de partilhar, Benita é fundadora da organização “The People Who Share” e foi a mentora do Global Sharing Day, que em 2013 chegou a 70 milhões de pessoas em 192 países de todo o mundo. A Impulso Positivo entrevistou esta empreendedora social quando esteve em Lisboa, por ocasião do Greenfest.

 

Impulso Positivo (IP): Como e quando teve a ideia de fundar a organização “The People Who Share”?

Benita Matofska (BM): A ideia é de 2010. Estava a trabalhar a trabalhar na “Global Entrepreneurship Week” e estava muito interessada na área do empreendedorismo social e na forma como este permite alcançar o bem no mundo, e construir negócios em torno das pessoas e do planeta. Devido ao meu cargo (Head of Global Enterpreneurship na Entreprise UK), era convidada para todo o tipo de eventos extraordinários e para entregar os mais diversos prémios. Provavelmente, a maior honra que tive durante esse tempo foi ter sido convidada como Counsellor para o Congresso One Young World, um evento que pretende dar uma voz política aos jovens. Todos os participantes da conferência tinham menos de 25 anos, com representação da maior parte dos países do mundo. E eu disse: é uma grande honra. E perguntei: “Quem mais convidaram para Counsellor?” E a resposta foi Bob Geldof e Desmond Tutu. Foi provavelmente a experiência mais avassaladora e, ao mesmo tempo humilde, da minha vida.

 

IP: E depois?

BM: Fui e partilhei uma plataforma com Bob Geldof e Desmond Tutu e foi uma experiência extraordinária. Nesse momento, ao ouvir estas duas personalidades falar das questões mundiais complexas e do trabalho incrível que ambos têm feito em questões de pobreza e igualdade, prometi que a próxima coisa que faria seria lançar algum tipo de movimento que de alguma forma pudesse também resolver problemas globais mais complexos. Queria dedicar a minha vida a fazer do mundo um lugar melhor. Depois de alguns meses a pensar nisso, a palavra partilha (“sharing”) estava sempre a surgir-me. Acordava a meio da noite com essa palavra em mente. E na manhã, continuava lá. Tudo o que fazia, onde quer que fosse e o que quer que pensasse que ia fazer a seguir, só conseguia pensar que tinha que ver com partilha. E uma manhã acordei e pensei: é isso! O problema no mundo é que existe escassez de partilha! E quando cheguei a essa conclusão foi muito enriquecedor, porque podemos fazer alguma coisa sobre isto. Comecei a pensar coisas como: se partilhássemos responsabilidade, não teríamos a destruição planetária que temos; se partilhássemos na nossa comunidade competências e tempo com outras pessoas, conheceríamos os nossos vizinhos e estaríamos a construir comunidades mais fortes e mais unidas. Se partilhássemos recursos de forma equilibrada, estaríamos a “atacar” estas situações reais de termos uma população em crescimento num planeta com recursos finitos. Então, todas a vezes, partilhar é a solução, e essa ideia estava sempre comigo. Mas, fundamentalmente, o que é preciso acontecer é uma mudança de cultura e o que era necessário era uma organização. Então cheguei à conclusão de que não existia uma organização para fazer campanha para a construção de uma economia de partilha. Foi assim que aconteceu. A “The People Who Share” nasceu oficialmente em janeiro de 2011. Muito rapidamente conseguimos ter muitos voluntários e começámos a organizar eventos muito locais, em que juntávamos as pessoas para esta experiência de partilha. As mudanças culturais acontecem porque as pessoas têm uma experiência positiva e isso leva-as a querer repetir. E por isso, de forma muito suave e local, começámos com esta partilha entre pessoas e cada vez que tínhamos um destes eventos, tínhamos mais pessoas a comparecer. E isso foi realmente o início de todo o movimento.

 

IP: E a sua vida, também mudou?

BM: A minha vida mudou por completo. Outro momento determinante foi quando decidi que queria lançar o National Sharing Day (Dia Nacional da Partilha). Senti, depois de ter a experiência de gerir a Global Entrepreneurship Week, que os benefícios de ter uma campanha de grande impacto público são muito importantes, pois podíamos inspirar as pessoas, de forma muito alargada. Podíamos ter uma semana ou um dia inteiro para celebrar a partilha e fazer com que as pessoas se envolvessem na campanha num dia específico, então pensei: vamos fazer algo chamado o National Sharing Day. Muitos me disseram: Estás louca? Fazer uma campanha nacional, sem dinheiro, com recursos muito limitados – na altura, apenas uma ou duas pessoas estavam a trabalhar comigo. Mas o que é que tínhamos a perder? O que seria o pior que poderia acontecer? Apenas algumas pessoas partilharem? Isso é assim tão terrível? Não tínhamos mesmo nada a perder. Então, organizámos alguns eventos e construímos uma rede com 45 organizações, que realizou atividades em todo o Reino Unido. O que aconteceu foi que no dia, à hora de almoço, estávamos no Twitter de forma global e as pessoas estavam a “twitar” das Filipinas, da Ucrânia, de todos os cantos do mundo, a dizer que gostariam de ter um Dia Nacional de Partilha. Utilizámos o hash tag “NationalSharingDay”, para que as pessoas vissem imediatamente o que era, e não ser um código esquisito, que as pessoas teriam que decifrar. Então, pensámos, vamos ser globais. Assim, em 2012, fizemos o primeiro Global Sharing Day. Construímos uma rede de parcerias globais com 165 parceiros, que alcançaram mais de 60 milhões de pessoas e 147 países e tivemos atividades em todo o mundo. Em 2013 fizemos o segundo Global Sharing Day, já envolvendo mais de 200 organizações parceiras e chegámos a mais de 70 milhões de pessoas em 192 países. E continuamos a ser uma organização sem fins lucrativos, uma empresa social e fundamentalmente gerida por voluntários. Em 2013, tivemos alguns patrocinadores corporativos. Enfim, estes foram alguns momentos chave.

 

IP: Explicou antes alguns momentos chave que levaram a fundar a “The People Who Share”. Há outros marcos importantes?

BM: Ter uma campanha que pretende aumentar a sensibilização e educação da população para a necessidade da economia de partilha é muito importante. Mas tão importante é ter as ferramentas que tornam essa partilha fácil e percebermos isso foi outro momento chave. A questão qSigar-se e a reconhecer-se com  é, se não tivermos essas ferramentas práticas, as pessoas vão dizer sim à ideia, mas não necessariamente colocá-la em prática. E assim nasceu o “Compare and Share”. É uma empresa de tecnologia, um negócio social. O que fazemos é construir as ferramentas e a tecnologia para que pessoas e empresas possam partilhar ativos e recursos de forma fácil. Para o consumidor, construímos o compareandshare.com, um site único de comparação de mercado. A visão é colocar todas as empresas com política/negócios de partilha num mesmo local, abrindo para o consumidor o mercado da economia de partilha da mesma forma que o Ebay abriu o mercado de bens segunda mão. Neste momento, temos todas as entidades de partilha de carro no Reino Unido na plataforma, agora estamos a construir a seção para imóveis de alojamento e vamos construir outras categorias, até termos um mercado de comparação online completo da economia de partilha. Outra coisa que fazemos no “Compare and Share” é que construímos tecnologia e licenciamos tecnologia que permita às empresas partilhar ativos. Neste momento, por exemplo, temos um contrato com uma grande IPSS do Reino Unido para ligar voluntários que querem partilhar tempo e fazer tarefas para pessoas carenciadas. Há muitas maneiras da tecnologia ser utilizada nesta área. Mas em última análise, os que estão empenhados na sustentabilidade, têm também que fazer um compromisso com a partilha de recursos.

 

IP: Quando começou a Economia de partilha no Reino Unido, como é que foi? Em Portugal ainda não temos esse “hábito”...

BM: Em 2011, quando falava da economia de partilha, as pessoas pensavam que estava a falar uma língua estrangeira. Não faziam ideia do que é que eu estava a falar. Lembro-me de quando utilizamos o hash tag no “SharingEconomy” no Twitter – fomos os primeiros a fazê-lo. Havia um pequeno nicho de pessoas que percebiam do que se tratava, de que havia um movimento de consumo colaborativo. Havia interesse, mas num setor de nicho. Mas a economia de partilha explodiu nos últimos dois anos e, em especial no último ano, vimos muita atividade nesta área. Uma das tendências e fatores que estão a causar é a tecnologia. A tecnologia permitiu facilitar a partilha de bens e por outro lado temos também a proliferação das redes sociais, em que é normal partilhar o que acontece na nossa vida. Inevitavelmente, essa tendência é um motor enorme para que as pessoas acedam às coisas que precisam em tempo real e quando estão em movimento. E isso é importante para as pessoas. Toda a ideia de acesso on demand para um consumo inteligente é baseada na partilha de recursos, e é o caminho para onde estamos a seguir. E não há volta para trás. A economia de partilha está aqui para ficar e explodiu enormemente nos últimos dois anos. E é fabuloso como está a caminhar para um lugar de primeira linha.

 

IP: Mas quem pode adotar esta postura e políticas? As pessoas, as empresas, ONG’s?

BM: Fundamentalmente, a economia de partilha aplica-se a todos os segmentos. É para indivíduos, comunidades, empresas, ONG, IPSS, empresas públicas: é multissectorial. O que estamos a falar, fundamentalmente, é fazer o mundo funcionar melhor. Não ter uma situação em que temos recursos desperdiçados e um mundo destruído. Falamos de um sistema, de uma economia em círculo fechado em que não existe desperdício. Tudo é regenerado para um propósito. É disso que se trata na economia de partilha – mas é também sobre uma sociedade saudável e feliz. De ligar as pessoas, de sabermos quem são os nossos vizinhos, onde estão, os seus nomes e estarmos ligadas a elas. As pessoas começam a ligar-se e a reconhecer-se como seres humanos, construímos comunidades sustentáveis. É assim que juntamos as pessoas, através de ações de partilha.

 

IP: Pode dar-nos um exemplo de uma entidade do setor privado que pratica a economia de partilha com sucesso?

BM: Existem muitos exemplos de empresas a fazê-lo. No Reino Unido, o retalhista Marks & Spencer, que tem uma iniciativa chamada “shwopping”, e que permite às pessoas devolver roupa à loja para reciclar, que seria deitada fora. No ano passado, reciclaram mais de 2 milhões de peças de roupa. E essa roupa foi toda doada à Oxfam. Outro exemplo é a B&Q (marca parte da King Fisher) que tem uma iniciativa chamada Street Club, que permite às pessoas também partilhar roupas nas suas ruas. O Marriott Hotel Group fez uma parceria com uma empresa chamada LiquidSpace, em que os espaços não utlizados no hotel são arrendados a empreendedores. É extraordinário. As empresas estão a começar a reconhecer que, em última análise, a economia de partilha está a mudar o futuro do negócio. E os negócios não podem estar fora desta economia. Com a tecnologia, as pessoas podem negociar de igual para igual, de pessoa para pessoa. As empresas mais inteligentes estão a reconhecer que precisam de facilitar que essa partilha aconteça. Particularmente no setor automóvel, por exemplo, a BMW, a AVIS, HERTZ, estão todos a entrar no mercado de partilha de carros, porque reconhecem que essa é a tendência. As pessoas estão a utilizar os carros assim – ter acesso ao que necessitam quando necessitam é fulcral. Se estas empresas querem ser rentáveis no futuro, têm que perceber que as formas de mobilidades estão a mudar.

 

IP: Que conselhos daria às pessoas que não aderiram à economia de partilha, mas gostariam de fazê-lo?

BM: Envolver-se na economia de partilha é sobre viver de forma inteligente, sobre ser mais inteligente, sobre como utilizamos as coisas que temos, mas que não, para conseguirmos as coisas de que necessitamos mais. É sobre fazer mais com menos. Estes são tempos difíceis para muita gente em todo o mundo e este é o momento para sermos mais inteligentes, para todo este movimento de quanto mais partilharmos, mais temos. No último verão, na minha família, fizemos uma troca de casa por duas semanas com uma família italiana. E foi extraordinário. Além do dinheiro que poupámos, quando chegamos lá, tivemos toda a informação fabulosa deixada pela família sobre os melhores sítios para levar as crianças, restaurantes, mercados, etc. Além de contribuirmos para a economia local, tivemos umas férias muito mais interessantes, porque vivemos como os locais e experimentámos tudo o que o país tem para oferecer e enquanto turista poderíamos não ter essa vantagem. Quando voltámos a casa, tínhamos comida no frigorífico, uma garrafa de vinho, presentes para as crianças: quanto mais partilhamos, mais temos. É verdade. Para as pessoas que estão nervosas em envolver-se na economia de partilha, é preciso saber que é um modo de vida mais inteligente, de termos as coisas que precisamos. O maior obstáculo que temos que superar é a confiança – para as pessoas partilharem, têm que ter confiança. Confiar nas empresas que fornecem serviços de partilha, nas pessoas com que trocam coisas - a confiança é absolutamente central. As empresas na economia de partilha aprenderam que este aspeto é crítico. É importante ter ratings online para fortalecer essa confiança. O que fazemos no “Compare and Share” é precisamente colocarmos todos estes serviços no mesmo espaço e para que as pessoas saibam onde encontrá-los, para que seja fácil ter acesso. Aliás, a facilidade em fazer é tão importante como a confiança. É sobre tornar fácil, partilhar a experiência. Para quem ainda não experimentou nenhum serviço de partilha, a primeira sugestão é, por exemplo, a partilha de carro.

 

IP: E que conselho daria às pessoas que já partilham, mas que podem sentir-se desmotivadas devido à falta de aceitação do conceito, por exemplo em Portugal?

BM: O que temos que pensar é que o que é pequeno agora, daqui a um ano já não é. Nos últimos dois anos, a economia de partilha cresceu e está agora avaliada em 330 biliões de libras globalmente. Atualmente a economia de partilha no Reino Unido é 1,3% do PIB, mas deverá crescer para 15% nos próximos 5 anos. Veja, por isso, a capacidade de explosão. Pode ser pequeno agora em Portugal, pode ser de nicho, mas não seria por muito tempo. Este é um movimento em que o ritmo, a rapidez, é enorme. Existe atualmente mais de 8.500 plataformas e sites no mundo para partilha de bens e produtos. E por isso é que achámos que era necessário ter um ponto único de comparação. As pessoas começam a ver que há estas iniciativas e isto não vai parar. A outra mensagem é que as pessoas se envolvam no Global Sharing Day: ouvimos no Greenfest lançar-se o repto para que hajam atividades e esforços no país para este dia. Esta será uma oportunidade ótima para que as pessoas se envolvam na partilha, organizem eventos desde almoços, partilha de roupa ou de competências. Há muita oportunidade para participar e assim que as pessoas começarem a perceber que isto é uma coisa que liga todo o mundo, irá explodir aqui também  e o ritmo será extraordinário.

 

Benita Matofska revelou recentemente ao Impulso Positivo que “muito embora a aprendizagem da partilha seja ainda um trabalho em progresso, a Economia de Partilha tem revelado um crescimento vinte vezes mais rápido do que aquele que seria expectável”. Hoje, “28% da população adulta do mundo inteiro já é preparada para partilhar e participa na Economia de Partilha e só na Europa a Economia de Partilha representa 28 mil milhões de euros de transações”. No futuro, “estima-se que em 2025 muitas das áreas da Economia de Partilha serão decisivas nalguns sectores da Economia, e que o valor total de 5 setores da Economia de Partilha chegue aos 303 mil milhões de euros”. A fundadora de “The People Who Share” explica que “as pessoas estão a escolher viver segundo a Economia de Partilha movidas por novas gerações que não têm qualquer problema em partilhar”.

Foto: Benita Matofska

(c) Greenfest

 

Revista IP ESPECIAL

Reedição da entrevista publicada na Revista IP 20, Março-Abril de 2014