Opinião: Caridade não entra nos Relatórios de Sustentabilidade

Há dias, numa conferência no Porto sobre o Papel das Empresas na Sociedade, organizada pela empresa Sair da Casca, e com o apoio do BCSD (www.bcsdportugal.org ), ouvi um testemunho da empresa de construção Soares da Costa que me perseguiu algum tempo: “Nada do que é caridade consta do nosso Relatório de Sustentabilidade. Apoiamos, mas não relatamos.”

Porque não?, pensei eu.

Partilhei esta minha interrogação com uma colega que reagiu assim: “Isso tem vindo a estabelecer-se como uma visão no meio das empresas que reflectem e trabalham sobre sustentabilidade e responsabilidade social.”

E continuou: “Mais do que isso, tem vindo a verificar-se que, à medida que incorporam essa visão de responsabilidade social, tendem a retirar o apoio de carácter caritativo às organizações sem fins lucrativos que sempre apoiaram.”

Então, será que a responsabilidade social afasta as empresas das organizações sem fins lucrativos? Não deveria. O que quererá então dizer-se com tudo isto?

Provavelmente que as empresas deverão reorientar-se, no relacionamento com o terceiro sector (o das organizações sem fins lucrativos), para um tipo de apoio diferente do apoio caritativo. E é esse o sentido que eu dou ao que foi dito atrás. Portanto, a responsabilidade social não parece poder (nem dever) afastar as empresas das organizações sem fins lucrativos, mas desafia-as a trabalhar com elas de uma forma diferente e com um potencial de impacto social superior.

Voltemos um pouco atrás, para seguirmos o raciocínio de forma mais detalhada.

“Nada do que é caridade…”

O que é caridade? Caridade é amor ao próximo, é apoio altruísta que se dá sem qualquer expectativa de retribuição. Apoios caritativos de uma empresa a uma instituição são normalmente doações, sob a forma de apoios financeiros pontuais que a empresa dá, muitas vezes durante anos, às mesmas instituições. Estas são, com frequência, geograficamente próximas. Este apoio é muitas vezes realizado sem qualquer exigência de prestação de contas, e a empresa não se envolve na sua aplicação. Eu chamo a isto filantropia.

Talvez sejam estas as situações que a Soares da Costa não relata no seu relatório de sustentabilidade. E não o relata, provavelmente pela mesma razão que muitos de nós, individualmente, preferimos não ser nomeados quando fazemos uma doação. Fazemo-lo por altruísmo, por amor, por sentido de dever e, com pudor, preferimos manter-nos anónimos. E muito bem.

“…consta do nosso Relatório de Sustentabilidade.”

O que consta de um relatório de sustentabilidade? De uma forma simples, este deve ser um espelho da empresa nas três vertentes de responsabilidade – económica, ambiental e social. Existem linhas de orientação reconhecidas internacionalmente para a construção de um relatório de sustentabilidade - as GRI Guidelines (Global Reporting Initiative). Estas linhas sugerem um conjunto de princípios a serem seguidos, bem como um conjunto de informações-padrão a serem apresentados nestas três áreas.

O reporte sobre a vertente económica será o menos estranho porque corresponde ao objectivo de geração de lucros presente em qualquer empresa. O reporte sobre a vertente ambiental, num país onde existe já ampla legislação na área, parece ser uma evolução natural para as empresas que querem demonstrar aos seus stakeholders o que fazem.

A vertente social tem sido das três a que tem evoluído mais devagar no seu entendimento e na sua prática. Além disso é alvo de diferentes interpretações. O foco do trabalho nesta vertente social podem ser os stakeholders internos – os colaboradores. Nesta perspectiva a empresa procurará ir ao encontro das suas necessidades e expectativas. Para isso precisa de procurar, junto dos seus colaboradores, saber quais são essas necessidades e expectativas. O foco da responsabilidade e trabalho nesta vertente social pode também ser a comunidade envolvente ou a sociedade num sentido territorialmente mais alargado. É aqui que surgem os apoios às organizações sem fins lucrativos.

Mas a ligação das empresas às organizações sem fins lucrativos, naquilo que é a vertente social da Responsabilidade pode realmente assumir outros contornos, bem mais colaborativos e com potencial de impacto que o tradicional apoio caritativo. Hoje acredita-se que é possível desenharem-se e concretizarem-se alianças entre o meio empresarial e as organizações sem fins lucrativos com ganhos para ambas as partes. A isto podemos chamar de filantropia estratégica. Numa aliança a empresa pode dar dinheiro ou bens, mas pode também colocar as suas competências ao serviço da causa, pode ser exigente na prestação de contas e ajudar a organização a desenvolver capacidades na área da gestão, que a empresa tem a obrigação de dominar. A organização pode deixar que a empresa divulgue o seu apoio à causa e negociar os termos em que isso será feito. Ambas podem desenhar o projecto em conjunto desde a raiz.

Deve ter esta natureza, por exemplo o projecto da Soares da Costa de apoio ao Centro Juvenil de Campanhã, que consta do seu relatório de sustentabilidade.

Portanto, em jeito de conclusão, se a caridade não consta dos relatórios de sustentabilidade isso não significa que as empresas não apoiem as organizações sem fins lucrativos. Podem e devem fazê-lo em moldes cada vez mais inovadores, eficazes e eficientes, contribuindo para a resolução dos mais prementes problemas da sociedade. Contudo, advirto: não deixem de fazer os apoios caritativos de um momento para o outro, sem preparar as organizações para a transição.

Raquel Campos Franco, in Revista Vida imobiliária, Outubro de 2010