Opinião: Jerónimo Sousa, CRPG, sobre a modernização do 3º sector

Tradicionalmente colocado (por vezes auto-colocando-se) à margem, e por vezes mesmo em oposição, às dinâmicas associadas às organizações de natureza empresarial – não apenas pelo seu objecto, como ainda pela sua abordagem e pelo seu modelo de gestão, o terceiro sector está hoje colocado face a vários, complexos e exigentes desafios de desenvolvimento.

Os critérios usualmente utilizados para a delimitação das suas fronteiras (por vezes mesmo com orgulho), estão hoje em causa, pois cada vez mais os dois mundos anteriormente opostos ou antagónicos são hoje permeáveis, interactivos, esbatendo-se cada vez mais as fronteiras tradicionais. Em causa estará a necessidade de reconceptualizar e reconfigurar o terceiro sector, actualizando a sua abordagem e a sua estratégia, face às condicionantes da envolvente. Do mesmo modo que as empresas alargaram a sua acção a domínios anteriormente reservados à economia social, e incorporaram elementos do modelo de gestão das organizações do terceiro sector, também a estas se impõe hoje alguma reconfiguração do seu campo de acção e nomeadamente a reorganização dos seus modelos e práticas de gestão, fertilizados com elementos da gestão competitiva empresarial.

As alterações significativas nos modelos de financiamento das organizações do terceiro sector, associadas nomeadamente à redução/estagnação dos financiamentos públicos, a competição emergente com as empresas e também com as suas congéneres, os novos posicionamentos sociais (dos cidadãos, das famílias, das entidades financiadoras e reguladoras), muito mais exigentes, tornam imperioso um esforço de mudança que terá de ser rápido e substantivo. Sem dúvida que não se trata de um sector homogéneo na sua composição – como os outros aliás – pelo que este movimento de mudança, de desenvolvimento, haverá de ocorrer em diferentes velocidades, diferentes ritmos de intensidade. A nova identidade será talvez mais uma modernização da identidade, pois o novo haverá de construir-se sobre o mesmo quadro de valores, a mesma filosofia, que constituem a matriz ideológica fundamental do sector.

Actualmente os serviços sociais, parte integrante do terceiro sector, estão face a um desafio de modernização que passa por três dimensões fundamentais de desafio: 1. assegurar resposta às novas necessidades e aos novos desafios, dos cidadãos e da sociedade; 2. combinar universalidade, sustentabilidade e qualidade nas respostas; 3. adaptação aos novos paradigmas sociais e de gestão. Assegurar serviços a todos os que deles precisam, de forma sustentada, com o mais elevado nível de qualidade, é o desafio que a Comissão Europeia se coloca a si própria e coloca aos actores sociais europeus, aos quais nenhum actor social poderá hoje eximir-se.

Num contexto de escassez de recursos financeiros, como assegurar a concretização desse desafio? A variável gestão surge como o factor a trabalhar para resolver o aparente paradoxo. Às organizações da economia social coloca-se hoje o desafio da gestão, de uma gestão competente, eficaz e eficiente, de modo semelhante ao que se coloca a qualquer empresa. Capacitar os seus quadros e os seus profissionais, qualificar os seus modelos e processos de trabalho, as suas respostas, optimizar os seus níveis de resultados e o uso dos seus recursos, constituem hoje desafios fundamentais, condição mesmo para a sustentabilidade das organizações. Sem qualidade, nenhuma organização será sustentável!

Jerónimo Sousa, Director do CRPG – Centro de Reabilitação Profissional de Gaia e Membro do Board of Directors – European Platform for Rehabilitation