Opinião: Pe. Lino Maia, Presidente da CNIS, sobre Bento XVI e as Organizações da Pastoral Social

BENTO XVI E AS ORGANIZAÇÕES DE PASTORAL SOCIAL

Dirigindo-se às organizações da Pastoral Social no encontro de Fátima e insistindo na necessidade de uma nova e grandiosa dinâmica que conduza para a civilização do amor, o Santo Padre recomendou “que as instituições da Igreja, unidas a todas as organizações não eclesiais, melhorem as suas capacidades de conhecimento” e que “seja clara a sua orientação de modo a assumirem uma identidade bem patente: na inspiração dos seus objectivos, na escolha dos seus recursos humanos, nos métodos de actuação, na qualidade dos seus serviços, na gestão séria e eficaz dos meios. A firmeza da identidade das instituições é um serviço real, com grandes vantagens para os que dele beneficiam. Passo fundamental, além da identidade e unido a ela, é conceder à actividade caritativa cristã autonomia e independência da política e das ideologias, ainda que em cooperação com organismos do Estado para atingir fins comuns”. E acrescentou: “As vossas actividades assistenciais, educativas ou caritativas sejam completadas com projectos de liberdade que promovam o ser humano, na busca da fraternidade universal. Aqui se situa o urgente empenhamento dos cristãos na defesa dos direitos humanos, preocupados com a totalidade da pessoa humana nas suas diversas dimensões”.

Individual e comunitariamente, por imperativos de compaixão e de fé, como expressão cultural e evangelizadora, o serviço da caridade, o serviço mútuo e, particularmente, o serviço aos mais carenciados vem sendo claramente assumido na Igreja. No interno e para o mundo. É todo um conjunto de rostos unidos na prática da misericórdia voltada para as crianças e as pessoas com deficiência, para os desamparados, os desempregados, os doentes, os idosos, os migrantes, os pobres, os presos, os sós e os sujeitos a carências que lhes perturbam a dignidade de pessoas livres. São incontáveis as acções individuais e são muitas as acções comunitárias. Eclesiais e vida numa Igreja que “vê com o coração”. É um serviço a Cristo na humanidade num contínuo processo de desenvolvimento integral.

Sempre serviço da Igreja cujo estilo é “um coração que vê onde há necessidade de amor e actua em consequência”. Essa é uma das suas belas expressões, que tão bom sinal de si dá ao mundo.

Alguns desses serviços institucionalizam-se, sem deixarem de ser serviços da caridade ao lado de muitos outros e sem concorrerem com eles. Não se dispensam mutuamente e tanto uns como outros ajudam a ver a Igreja como “a estalagem”, da parábola do Bom Samaritano, onde “o óleo da consolação e o vinho da esperança” “é derramado sobre as feridas dos homens”, como belamente a apresentou Bento XVI no referido encontro.

Os serviços que se institucionalizam podem ter a forma de associações de inspiração cristã, centros de bem-estar social, centros sociais paroquiais, cruzadas de bem-fazer, fundações canonicamente erectas, irmandades e misericórdias. Coexistem com Comissões de Justiça e Paz, Conferências Vicentinas, Grupos Cáritas, de Caridade ou Sócio-caritativos e muitos outros. Se nem em todas as comunidades se justificam serviços institucionalizados (e nem sempre se justificam) não há verdadeiras comunidades sem serviços de caridade e sem que permanentemente elas próprias sejam mobilizadas para a vivência e para o anúncio da Caridade.

A institucionalização de serviços da caridade pode ser determinada pelas características de alguns serviços ou pela cooperação com o Estado. Essa é uma opção que implica obrigações e limites, muitas vezes incompatíveis com um serviço de todos, a todos e para todos. Nessa escolha, preferencialmente, o espaço é de leigos formados e provavelmente instituídos no ministério da Caridade. Atempadamente, importa garantir sustentabilidade e estabilidade e que o serviço seja avocado como da comunidade e para a comunidade: não há futuro para uma comunidade quando um serviço institucionalizado não está ao serviço da comunidade ou quando esgota todas as energias da comunidade …

Bem preparado e bem participado, o encontro com as organizações da Pastoral Social, para ser bem sucedido, deve ser bem escutado e bem continuado o discurso de Bento XVI.