Tours no Porto pelas mãos de sem-abrigos

Helena Pizarro, vice-presidente da WelcomeHome contou à IP News como é que esta cooperativa social tem ajudado a mudar não só a vida dos sem-abrigo da cidade do Porto mas também daqueles que a visitam. Visitas guiadas pela cidade, tendo como guia um sem-abrigo. Já ouviu falar? Não vai querer perder.

 

IP News: Como e quando surgiu o projeto WelcomeHome?

Helena Pizarro (HP): O projeto surgiu pelas mãos de Alfredo Costa, em 2011, no âmbito do seu trabalho final do Mestrado em Economia Social da Católica do Porto. Em 2013, depois de 2 anos de reflexão, auscultação e planeamento e com o apoio de muitas pessoas e entidades, foi criada a Cooperativa de Solidariedade Social, WelcomeHome.

 

IP News: No que é que consiste?

HP: A WelcomeHome é uma Cooperativa de Solidariedade Social orientada para o apoio a pessoas em situação de sem-abrigo com possibilidades de empregabilidade. Neste âmbito de atuação podem ser consideradas duas vertentes de apoio, a formação e a criação de negócios sociais capazes de gerar postos de trabalho para esta população específica. Esta iniciativa encontra-se a ser desenvolvida e apoiada na incubadora de empresas SpinLogic.

Nos próximos cinco anos, queremos diversificar a oferta de auxílio a estas pessoas, através da criação e desenvolvimento de projetos inspiradores, em parceria com a sociedade civil. Com eles poderemos fomentar processos de autovalorizarão pessoal e profissional.

 

IP News: A WelcomeHome já lançou um negócio social, o WelcomeHome Tours. Do que se trata?

HP: São percursos em tour liderados por sem-abrigo qualificados para serem “condutores locais”.

Estes condutores locais frequentaram módulos formativos onde adquiriram conhecimentos histórico-culturais sobre a cidade do Porto, como receber o Outro na sua própria cidade (Hospitalidade e Experiência Turística), aos quais puderam aliar todo o conhecimento profundo que têm da cidade e que, temporariamente, foi a sua casa e memórias de uma cidade que os viu crescer e os acolheu, a qual conhecem como ninguém.

Os percursos foram definidos em conjunto os sem-abrigo, para que o resultado pudesse ser não só de interesse cultural e histórico mas que pudesse ter o cunho pessoal de quem mostra a cidade com toda a simplicidade e com todo o entusiasmo. Porque consideramos que a cidade não vive só da sua História, mas também das suas gentes e das suas memórias, da sua Alma.

Neste momento estão já em vigor 2 rotas para quem quiser usufruir do nosso serviço e queremos criar mais 1 muito em breve. O WelcomeHome Tours emprega neste momento 2 sem-abrigo.

 

IP News: Qual é o tipo de relação que o WelcomeHome tem com os sem-abrigo?

HP: É uma relação próxima, solidária e atenta às reais necessidades destas pessoas, sempre na perspetiva de trabalhar em rede com uma série de outras organizações da cidade do Porto.

Atendendo que os nossos beneficiários são pessoas em situação de sem-abrigo com perfil de empregabilidade, existem ainda condições para que estas pessoas façam parte da Cooperativa, assumindo assim um modelo misto de cooperativa de utentes e trabalhadores. Tivemos desde sempre a visão de envolver estes cidadãos na definição e implementação da WelcomeHome, naturalmente, nos negócios sociais que já criámos e que pretendemos desenvolver no futuro.

 

IP News: Quem tem procurado os serviços do WelcomeHome?

HP: Até à data, quem tem procurado os nossos serviços são essencialmente pessoas que os conhecem pessoalmente, portuenses emigrados que estão sempre "alerta" ao que se faz na cidade e que nas suas férias em Portugal querem conhecer um Porto diferente e portugueses de vários pontos do país que tiveram conhecimento do projeto pelos meios de comunicação.

Neste momento, apenas temos visitas em português, o que nos limita o público-alvo. Mas estamos a trabalhar para, a curto prazo, termos a funcionar o nosso serviço noutras línguas pois, dentro da população sem-abrigo, existem várias pessoas que estiveram emigradas durante muitos anos e têm esse conhecimento.

 

IP News: Quais são os objetivos a curto e médio prazo da WelcomeHome?

HP: Desenvolver negócios sociais que possam gerar emprego para esta população que vive uma situação de exclusão social e tornar a Cooperativa sustentável para podermos um dia não ter de depender de terceiros para cumprir os nossos objetivos. Temos trabalhado na construção de parcerias e na angariação de fundos junto de empresas e particulares.

Estamos a trabalhar na criação de um Gabinete de Apoio Jurídico e noutro de Apoio Psicológico para podermos fazer um acompanhamento especializado adequado às necessidades de cada sem-abrigo que nos procura.

No âmbito dos negócios sociais, temos ainda em vista a criação, em breve, de uma pizzaria no centro histórico do Porto, visando a criação de postos de trabalho para pessoas em situação de sem abrigo e com perfil de empregabilidade. Pretendemos também abrir uma Loja Social dedicada ao comércio a retalho de produtos desenvolvidos e produzidos pela população sem-abrigo que seja também um ponto de venda para os tours e um espaço para eventos promovidos pela WelcomeHome.