Opinião: Carlos Azevedo, UDIPSS-Porto, sobre os desafio do sector social solidário

Entre o coração e a razão: os desafios do Sector Social Solidário
As organizações do Sector Social Solidário nasceram da sociedade civil e têm sido, ao logo dos anos, capazes de encontrar soluções para os problemas sociais. No final do século passado, e numa altura em que a mulher integrava o mercado de trabalho, foram capazes de estruturar uma resposta capaz de garantir a conciliação da vida profissional e familiar: o Jardim-de-infância. Esta ideia respeitou as características que hoje definem qualquer projecto de inovação social: eficácia, eficiência, sustentabilidade e replicabilidade.
Tendo como pano de fundo a actual crise económica, novas e mais prementes necessidades sociais surgirão decorrentes de falhas de mercado. Este fenómeno exigirá uma maior intervenção destas organizações com mais flexibilidade e rigor na resposta aos fenómenos emergentes. Estes desafios terão de ser assumidos com qualidade, perseverança e sustentabilidade.

Ganhar o desafio da qualificação fará com que as organizações passem a ser capazes de: (1) renunciar à rigidez organizacional, ainda que implique hipotecar o crescimento, sob pena de se perder a capacidade de promover a mudança social; (2) ganhar novas competências, adoptar e adaptar instrumentos e ferramentas da gestão moderna fazendo com que o controlo deixe de ser a única função de gestão utilizada; (3) resolver o problema de agência e adoptar um novo sistema de contratualização entre a gestão operacional e a gestão estratégica assente no valor fundamental da confiança; (4) Construir e consolidar uma marca solidária que autonomize este sector e, simultaneamente, permita o aproveitamento de capital desperdiçado; (5) adoptar um novo processo de decisão que permita destrinçar e hierarquizar entre problemas urgentes, importantes, de certeza, de incerteza, de ambiguidade e de crise, assim como encontrar processos de decisão adequados para cada um deles.

Paralelamente, este sector ainda se defronta com o desafio da sustentabilidade que, grosso modo, está associado à sustentabilidade económica e identitária. Nesta perspectiva, agarrá-lo poderá implicar: (1) Uma aposta em “negócios sociais” que gerem valor social e económico; (2) Construir confiança para consolidar relações na medida em que as parcerias são um recurso num sector que procura combater fenómenos como a pobreza e a exclusão social que, por definição, são multidimensionais e complexos. Este compromisso obrigará a uma aposta séria na prestação de contas e na comunicação; (3) Arriscar, ou seja, construir proactivamente soluções a partir das necessidades reais e das expectativas das pessoas; (4) Exercer a função de lobbying e influenciar a construção e implementação de políticas públicas segundo os princípios da proximidade e da subsidariedade.

Carlos Azevedo, Coordenador-geral da União Distrital das IPSS - Porto