Opinião: Diogo Vasconcelos, Cisco, sobre criar riqueza e responder a necessidades sociais

É possível criar riqueza dando resposta a necessidades sociais

altA Grameen Danone Foods Ltd foi lançada em 2006 quando Muhammad Yunus, fundador do Grameen Bank (pioneiro do micro-crédito) e Franck Riboud, o líder da Danone, decidiram levar iogurte de baixo custo e alto valor nutritivo à população do Bangladesh. Para além de melhorar a alimentação das crianças, a nova empresa, detida a meias, teria como objectivo melhorar as condições de vida das comunidades mais pobres do Bangladesh, através do envolvimento das mesmas na produção, distribuição e venda do iogurte. A primeira fábrica abriu um ano depois, no Distrito de Bogra. O iogurte é vendido de duas formas: em lojas equipadas com caixas de frio, e porta a porta por mais de 500 Grameen Danone Ladies, uma rede de micro-empreendedoras formadas pela Grameen Danone. A Danone fornece o know-how em áreas como a construção e manutenção da fábrica e produção do próprio iogurte, a Grameen entra com o seu conhecimento do ambiente local e a sua impressionante rede. Todos beneficiam: o iogurte é altamente nutritivo, melhorando a saúde das crianças das zonas mais pobres do País; os ingredientes são produzidos por agricultores locais financiados pelo Grameen Bank; os vendedores complementam o rendimento familiar. Em face do sucesso, a Danone Grameen tenciona alargar o projecto a todo o país, construindo 50 fábricas até 2020.

Este exemplo de “corporate social innovation” é citado por Gary Hamel e José Fernando Pinto dos Santos no relatório que escreveram para a OCDE sobre “A Nova Natureza da Inovação”. E que nos dizem estes autores? Que na era industrial, as empresas focavam-se na produção e na maximização do lucro. O que era privado era privado, o que era público era público. Hoje, essa linha de demarcação é posta em causa por empresas capazes de desenvolver novas soluções para os problemas sociais. Não se trata de filantropia: as empresas mantêm o seu focus na procura de novas oportunidades lucrativas. Para isso mudam a sua cultura, abrem o seu processo de inovação, criam novas soluções em colaboração com outros parceiros, sejam eles empresas, organizações não governamentais ou governos. Ao fazê-lo, acedem a novos mercados e a novas oportunidades, e testam novos modelos de negócio. Sectores como o envelhecimento da população, a regeneração urbana, o ambiente ou as doenças crónicas vão representar uma crescente fatia das economias europeias: é dos sectores sociais que virá uma grande parte dos novos empregos. Em suma: houve um tempo que os temas económicos e sociais eram vistos em separado. A economia produzia riqueza, a sociedade gastava. Na economia do Século XXI, isso já não é verdade. O que significa que a cartilha ideológica dominante - primeiro produz-se riqueza e depois distribui-se – está obsoleta. É possivel criar riqueza e, ao mesmo tempo, dar resposta a necessidades sociais.

Diogo Vasconcelos, Distinguished Fellow e Senior Director da Cisco International (Londres).

dvasconc@cisco.com