Saúde e Bem Estar | Perspetivas de quem prolonga a vida ativa

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Perspetivas de quem prolonga a vida ativa

17/08/2018 |

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Embora continuem a vida ativa, desempenhando as mesmas ou diferentes funções, têm perspetivas distintas quanto a questão da reforma obrigatória.

Portugal tem uma estrutura etárias das mais envelhecidas da Europa com diferenças no regime laboral que permite, a quem trabalha no sector privado, poder continuar para além dos 70 anos, caso o pretenda. Se houver concordância da entidade patronal, os trabalhadores podem assinar um contrato renovável a termo de seis meses.

O que não acontece no serviço público, onde terá obrigatoriamente que se reformar. “Muitos destes funcionários públicos deparam-se com a obrigatoriedade da reforma, apesar de se sentirem aptos para continuarem a trabalhar e, em alguns casos, necessitarem mesmo de trabalhar, quer seja por razões psíquicas, económicas ou de outra índole qualquer.” Um “choque” que “pode ser muito prejudicial, inclusive em matérias de saúde”.

 

Perspetivas de quem prolonga a vida ativa:  Daniel Sampaio

Depois de se encontrar a frente do serviço de Psiquiatria do Hospital de Santa Maria (Lisboa) durante quatro décadas, Daniel Sampaio, deixou o Serviço Nacional de Saúde (SNS) em finais 2016 por ter atingido o limite de idade. É um defensor dos que consideram que a saída não devia ser “abrupta”.

“Dirigi o serviço até aos 69 anos e 364 dias, até às 6 da tarde. No dia seguinte, estava reformado”, conta o psiquiatra para quem, a haver um limite indicador, este poderia ser o de “75 anos”.

Também faria sentido, advoga, que alguns funcionários pudessem continuar nos serviços públicos como consultores.

“Teria sido bom para o meu sucessor que eu tivesse ficado mais algum tempo para ajudar à transição”, acredita o médico, que lembra que, muitas vezes, profissionais experientes saem dos serviços públicos sem que haja quem os ajude na transição ou mesmo, sem que haja alguém para os substituir de imediato.

Continua a exercer no seu consultório e faz formação em terapia familiar. Daniel Sampaio frisa ainda que os 70 anos de hoje não se podem comparar com os 70 anos do passado.

 “Se uma pessoa tiver saúde, se estiver na posse plena das suas faculdades, não deveria ter de sair compulsivamente.”

 

Perspetivas de quem se mantem ativo: Francisco George

Há sempre quem partilhe uma visão distinta. Francisco George, Director-geral da Saúde durante 12 anos, tendo deixado o cargo em Outubro do ano passado por limite de idade, é da opinião que esta regra não devia ser alterada.

Na administração privada quem tem mais acções é quem mais ordena. Mas a administração pública não é uma empresa privada. É uma empresa com 10 milhões de accionistas. Faz todo o sentido que os titulares de cargos dirigentes dêem lugar aos mais jovens, os lugares não podem ser vitalícios”.

Para o ex-director-geral da Saúde, “ficar eternamente num cargo é que pode ser um desperdício”.

Se alguém considerar que continua em condições para trabalhar, “pode sempre concorrer a outros lugares no sector social ou no privado”, reflecte.

Foi o que fez. É agora presidente da Cruz Vermelha Portuguesa, um cargo que exerce sem remuneração, depois de 44 anos de serviço público.

A saída é saudável, é a altura de encontrar outro caminho. Há quem dê em escritor, pintor, dirigente de organizações humanitárias” que não exclui uma futura ida para a política.

 

Perspetivas de quem se mantem ativo: Gentil Martins

Com 88 anos, o médico Gentil Martins é uma das personalidades que está contra a reforma compulsiva aos 70 e que foi “obrigado” a sair da Faculdade de Ciências Médicas e do Hospital D. Estefânia, em Lisboa, há quase duas décadas.

Atualmente vivemos mais 20 anos do que quando o limite dos 70 anos foi instituído”,

Apesar de operar cada vez menos, Gentil Martins não compreende que exista idade estipulada para a reforma.

Não acredito que uma pessoa com 66 anos esteja gagá. Haverá pessoas com 60 anos que estão gagás, mas há outras com 70 ou 80 anos que estão muito bem”.

 “Deixem as pessoas trabalhar enquanto estiverem bem.” No sector da saúde, competirá à Ordem dos Médicos verificar se os profissionais “estão ou não em condições”, propõe.

Trabalhar, também pode ser para muitas pessoas, sinónimo de uma vida feliz, afirma Gentil Martins.