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Co-living boom

16/08/2019 | Hugo Santos Ferreira Vice-presidente executivo da APPI

Hugo Santos Ferreira da APPI – Associação Portuguesa de Promotores e Inves Hugo Santos Ferreira da APPI – Associação Portuguesa de Promotores e Inves

O mundo está a meio de uma evolução alucinante, com reflexos em várias vertentes tecnológicas e até sociais. Falamos, por exemplo, do modo diferente como as novas gerações encaram a vida pessoal, profissional e em comunidade. Os novos residentes das cidades são hoje os millennials, os digital nomads, os young profissionals ou os expats, com diferentes tipos de vivências, necessidades e exigências.

A indústria do imobiliário não pode ficar alheia a essa transformação, tendo de estar atenta e conhecer as novas formas de fazer imobiliário e de criar espaços. Estão, nomeadamente, em causa as formas alternativas ao segmento residencial: co-living, student housing, senior housing, assisted living, micro-housing, etc…

Interessa, por isso, conhecer as várias razões que estiveram por trás do nascimento destas formas alternativas em cidades como Nova Iorque, Londres, ou Berlim, onde já não são vistas como tendências, mas sim como realidade de uma sociedade em mudança e, mais do que isso como uma necessidade do presente, que vai perdurar e desenvolver-se no futuro. Testemunhando esse facto, um estudo recente da consultora PwC refere que a procura para investimento neste tipo de conceitos alternativos mais do que duplicou entre 2015 e 2019.

Resposta a dupla questão

Estas formas alternativas de imobiliário residencial têm na base a superação de dois problemas que são comuns a quase todas as cidades desenvolvidas do mundo. Um é a falta de oferta habitacional nos centros urbanos, especialmente perto dos locais de trabalho, e consequente escalada dos preços. O co-living é uma das ferramentas para resolver tais problemas porque áreas privadas mais pequenas permitem uma maior alocação de utilizadores por edifício, otimizando-o, com a óbvia disponibilização a preços mais baixos.

Outro problema que estes conceitos pretendem resolver é o facto das necessidades dos novos habitantes das cidades serem outras. Há um novo estilo de vida e de trabalhar. Não é só a busca de preços mais baixos que motiva a procura por estas formas alternativas, mas sim uma maior apetência pela vida em comunidade, beneficiando dos conhecimentos e aprendizagens do coletivo. Estamos a falar dos habitantes do futuro. Se atentarmos nos millennials, por exemplo, são jovens do mundo, que necessitam de espaços flexíveis, descomprometidos, onde a palavra partilha ganha uma nova dimensão.

As próprias noções de um trabalho para a vida num mesmo local são conceitos do passado. Hoje as empresas e os trabalhadores privilegiam a mobilidade e o conhecimento à escala global. A conexão e as relações empresariais são agora feitas em rede, não carecendo haver um contacto pessoal tão frequente. E, portanto, o próprio co-working é uma realidade que veio, igualmente, para ficar. Mas mais, se considerarmos que também aqui as exigências são já muito mais exigentes, é natural que tenhamos a entrar no nosso mercado alguns projetos com uma mistura de conceitos e ofertas, como os projetos que combinam trabalho, lazer e vida em comunidade, como os hostels para digital nomads, ou os edifícios que combinam harmoniosamente co-living com espaços de co-working.

Regulamentação precisa-se

Entraves? Há e ainda representam um grande obstáculo. O mais significativo é a regulamentação (nomeadamente camarária) aplicável aos novos modelos. Depois, o próprio conceito jurídico-legal: Habitacional? Serviços? Na área do turismo? E, por fim, a escassez de terrenos ou edifícios que se enquadrem neste tipo de ativos imobiliários, com bons preços e localizações.

Concluindo, a necessidade vai, certamente, criar a oportunidade (já está a criar) e os problemas existem para ser resolvidos. Assim as entidades públicas se juntem aos privados na criação das cidades do futuro.