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Contributo da medicina de precisão para a longevidade

17/06/2020 | Ana Teresa Freitas

Medicina de precisão para uma maior longevidade - Foto: Unsplash Medicina de precisão para uma maior longevidade - Foto: Unsplash

Por oposição à perspetiva “one size fits all” (tamanho único para todos), a medicina de precisão consiste numa abordagem personalizada ao tratamento e à prevenção de doenças, isto é, em função de características de cada pessoa, estilo de vida e variabilidade dos genes. A medicina de precisão encaminha-nos para um novo paradigma de longevidade, em que não só vivemos mais anos como vivemos saudáveis por mais tempo.

 

Impulso Positivo: Muitos de nós estão pela primeira vez a ouvir algo que nos parece extraordinário. A comunidade científica e médica explora hoje um novo modelo para a medicina - a que chama medicina de precisão. Não podemos senão começar por perguntar, o que é a medicina de precisão?

Ana Teresa Freitas: A medicina de precisão é um novo nome para um modelo de medicina em que o tratamento de uma doença ou a sua prevenção levam em consideração a informação sobre a genética de cada individuo, o impacto do meio ambiente e o seu estilo de vida. A ideia é ter acesso ao máximo de dados sobre a doença e a pessoa, de forma a que o tratamento ou a prevenção da doença possam ser o mais precisa possível para aquela pessoa. Esta visão para a medicina já tem vários anos, sendo muitas vezes também designada de medicina personalizada.

Tanto a palavra precisa como a palavra personalizada fazem parte de uma designação mais lata que é a designação de medicina dos 4Ps. Este novo paradigma considera que o ato médico deve ser preciso, personalizado, preventivo e participativo.

- Preciso, quer dizer utilizar mais dados individuais para tomar uma melhor decisão.

- Personalizada, quer dizer que cada ato médico deve ser o mais único possível e dirigido apenas àquela pessoa.

- Preventivo, quer dizer que não devemos esperar para tratar doenças mas sim investir em manter a pessoa saudável.

- Participativo, quer dizer que o individuo deve ser dono do seus dados e participar de forma ativa na prevenção e cura da doença.

 

Impulso Positivo: E quais são os benefícios que nos traz a medicina de precisão?

Ana Teresa Freitas:  Os benefícios são muito relevantes para três entidades:

1) o individuo em primeiro lugar;

2) o profissional de saúde; e

3) a sociedade como um todo.

Para o individuo estamos a falar de mais saúde e durante mais tempo. Menos dor, menos efeitos secundários, uma vida mais feliz, mais saudável e mais longa.

Para o profissional de saúde estamos a falar de menos frustração. As tomadas de decisão são mais informadas, mais eficazes e mais partilhadas. Os médicos voltam a tratar pessoas e não doenças.

Para a sociedade estamos a falar em ganhos derivados de um investimento na gestão da sustentabilidade dos recursos dedicados à saúde. Passaremos a ter mais pessoas mais saudáveis por muito mais tempo e como tal isso leva a menos gastos com a saúde. As entidades pagadoras podem decidir investir mais nas situações mais críticas ou passar a utilizar modelos de pagamento baseados no valor do benefício da intervenção e não apenas a olhar ao custo do tratamento.

 

Longevidade 3.0 – o novo paradigma

Impulso Positivo: Será a adoção deste novo modelo de medicina, focado na pessoa e não na doença, que nos permitirá avançar para um novo paradigma de longevidade?

Ana Teresa Freitas: Eu penso que sim. Gosto de chamar a este novo paradigma de Longevidade 3.0. Neste modelo podemos viver muito mais tempo mais saudável. Espero que este novo paradigma possa contribuir de forma muito positiva para o aumento de momentos de felicidade.

 

Impulso Positivo: De que forma o conhecimento sobre a predisposição genética de cada indivíduo pode melhorar os resultados das terapêuticas?

Ana Teresa Freitas: Hoje em dia já existe um conhecimento científico muito profundo sobre como determinados fármacos são metabolizados e geridos pelo nosso corpo e como é que isso se relaciona com a informação que está nos nossos genes. Isto quer dizer que já foram realizados numerosos ensaios clínicos e que em alguns casos a própria bula do medicamento já trás informação sobre a necessidade do conhecimento da informação genética antes da prescrição de um fármaco.

Sabemos que existem genes muito concretos que são responsáveis pela produção de enzimas utilizadas na ativação e desativação de muitos fármacos, como é o caso do grupo de genes do citocromo P450.

Estes genes sofreram alterações ao longo do processo evolutivo que levaram a que diferentes indivíduos possam responder de forma diferente a um determinado fármaco. Estas alterações podem levar a que uma pessoa metabolize um fármaco mais lentamente ou que o faça de forma muito acelerada.

Ter acesso a esta informação é determinante para sabermos se uma determinada pessoa pode ou não tomar a dose recomendada na bula do medicamento ou se deve diminuir ou aumentar para ter o mesmo efeito. Pode também saber se vai ter mais ou menos efeitos secundários ou se ou tratamento vai ser ou não eficaz. Acresce que muitos fármacos são ativados ou desativados pelos mesmos genes. Isto quer dizer que pode haver competição entre fármacos pela mesma via de metabolização, levando por vezes à falha da terapêutica.

 

Impulso Positivo: Ter acesso à nossa informação genética é algo dispendioso?

Ana Teresa Freitas: A minha primeira resposta é não. Claro que se eu quiser ter acesso a toda a sequência do meu genoma e depois ter acesso a um relatório com toda a informação genética que pode ser extraída aos dias de hoje desses dados, então a resposta é sim, isso é ainda caro e por vezes pouco validado em termos de aplicação clínica.

Se estivermos a falar em ter acesso a informação sobre o meu genoma para cerca de 100 fármacos, muito prescritos, de elevada credibilidade científica e clínica, então a resposta é que isso custa dois jantares num bom restaurante e que tem de ser pago apenas uma vez na vida pois essa informação não vai mudar.

Face aos investimentos que cada um de nós faz ao longo da vida em vestuário, os dados e conhecimentos genéticos são mesmo muito baratos e podem aumentar significativamente o tempo em que vivemos saudáveis.

Existe infelizmente uma percepção muito errada de que os testes genéticos são todos caros e que estes dados são pouco úteis.

 

Acredito que este novo modelo para a medicina vai ser implementado a partir das pessoas

Impulso Positivo: O desconhecimento por parte dos doentes das potencialidades da medicina de precisão é um desafio à sua implementação generalizada?

Ana Teresa Freitas: Concordo que a implementação deste novo modelo para a medicina é um desafio mas não considero que a barreira seja o desconhecimento por parte dos doentes. Acho que a principal barreira prende-se com os mecanismos de incentivos que estão implementados e que premeiam quem faz o tratamento mais rápido e mais barato sem olhar às consequências de longo prazo para o doente e para a sociedade. Se o valor de uma determinada intervenção médica passar a ter de incluir o benefício de longo prazo para o doente e a avaliação do doente sobre a consequência desse tratamento, tudo muda de figura.

Temos de mudar o modelo de incentivos. Acredito que este novo modelo para a medicina vai ser implementado a partir das pessoas. Estas têm um incentivo muito grande pois querem viver mais tempo e de forma mais saudável. Querem ter acesso a tratamentos cada vez mais eficazes e estão a ganhar a maturidade para serem críticas sobre o serviço que lhes é prestado.

É possível calcular o número de jovens que já usam aplicações móveis de monotorização da saúde, que investem numa alimentação saudável e em realizar exercício. Que querem ter acesso aos seus dados e utilizá-los. Acho que temos cada vez mais pessoas despertas para o potencial que as novas tecnologias estão a colocar nas suas mãos, na área da gestão da saúde. Agora é necessário como sociedade definir novos modelos de incentivos para a máquina da saúde.

 

Impulso Positivo: E da parte dos profissionais de saúde? Como encaram este novo modelo, sobretudo num contexto em que possivelmente ainda faltam orientações clínicas e terapêuticas?

Ana Teresa Freitas: Esta resposta tem vários aspectos a serem considerados. Para o caso particular da utilização da informação genética na adaptação da terapêutica, temos um resultado muito interessante de um projeto Europeu, o projecto U-PGx (http://upgx.eu/), que está a envolver médicos de 7 países.

Foram entrevistados milhares de médicos, sendo que 95% considera que a informação genética é muito relevante para a prescrição de um medicamento mas apenas 10% indica que tem formação sobre o tema. Neste contexto, é claro que há uma vontade para mudar e usar mais informação.

No cenário em que estamos a falar de uma mudança de um paradigma muito enraizado, é natural que existam muitas dúvidas e alguma resistência. Gosto de pensar que nenhum profissional de saúde se sente confortável com o insucesso e com a dor qua possa causar nos seus doentes, e como tal aos primeiros sinais de sucesso do novo modelo não vai ser difícil a adoção. Considero que neste momento têm de ser os doentes ou o estado a criar oportunidades para casos de sucesso.

 

Estratégia Nacional para a Medicina de Precisão

Impulso Positivo: A apresentação da ‘Estratégia Nacional para a Medicina de Precisão’, ainda muito recentemente, em dezembro do último ano, pode ser a alavanca necessária para avançarmos na generalização da medicina de precisão em Portugal?

Ana Teresa Freitas: Considero que o documento que refere apresenta o tema de uma forma clara e levanta pontos muito relevantes para discussão.

Acho mesmo muito relevante a existência deste documento e das propostas que são sugeridas para implementação.

Gostava muito de ver esta estratégia nacional mais amplamente divulgada, não só entre todos as entidades de saúde mas também junto do grande público. É preciso falarmos da medicina dos 4Ps, reforçar o conceito de medicina de precisão e esclarecer as pessoas em como elas são peças chave e ativas nesta nova visão para a área da saúde.

A única coisa menos ambiciosa que encontrei no documento foi o número de projetos piloto que vão ser considerados, apenas 2. Acho pouco, muito pouco. O tema é complexo e como tal precisa de muita experimentação para podermos definir o melhor caminho e validar que os princípios base para a mudança poderão realmente ser atingidos e poderão ser eficazes.

Considero que é necessário a definição de mais projetos piloto, mais pequenos e como tal mais fáceis de implementar.

Considero também que é preciso ligar esta estratégia nacional ao projeto Europeu “The One Million Genome initiative”, que está a ser liderado em Portugal pelo Instituto Ricardo Jorge.

Tal como indiquei no início desta entrevista, a medicina de precisão está assente na utilização dos dados genéticos e como tal não é possível desenvolver um plano estratégico nesta área sem que este integre os dados dos milhares de genomas que vão ter de existir sobe a população Portuguesa.