Opiniões | A arte de envelhecer: o direito poder ficar em casa

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A arte de envelhecer: o direito poder ficar em casa

15/05/2019 | Carmo Carnot, Enfermeira e diretora técnica da Gentilcare

Carmo Carnot, Enfermeira e diretora técnica da Gentilcare Carmo Carnot, Enfermeira e diretora técnica da Gentilcare

Cuidar e ser cuidado, é um dever e um direito ao longo do ciclo de vida de cada pessoa. Vivemos cada vez mais tempo. Cerca de dois milhões de portugueses têm mais de 65 anos. O grupo com maior crescimento é o das pessoas com mais de 80 anos. Estima-se que, em 2050, a relação será, em todo o mundo, de um jovem para cinco pessoas dos escalões etários mais avançados.

 

Os hábitos de vida têm muita influência na idade que cada um sente que tem. Importa salientar que o envelhecimento é um processo biológico natural, em que o corpo sofre variadas alterações que influenciam direta e indiretamente a saúde.

Para viver com qualidade, é importante conviver com a vizinhança, as pessoas com quem temos relações de amizade e com a família. Partilhar com as novas gerações os conhecimentos adquiridos ao longo da vida, facilita a integração social, contribuindo para a diminuição do isolamento causador de inúmeras situações de doença na população com idade mais avançada.

As pessoas desses escalões etários são, muitas vezes, institucionalizadas por doença, pobreza, solidão e, até, abandono. Mas será que o desenraizamento a que são sujeitos com esta institucionalização contribui para que tenham, na verdade, qualidade de vida?

Será que já nos questionamos quantas pessoas dos escalões etários mais avançados que tiveram de deixar a sua casa para serem colocadas em instituições o fizeram por opção própria? Sabemos que, se tivessem outras opções, não o fariam.

As políticas para este público deveriam convergir para a manutenção das pessoas, sempre que possível, nas suas residências, recorrendo, por exemplo, ao apoio domiciliário. Concomitantemente, esta possibilidade deverá proporcionar atividades, tais como passear, dançar, cultivar plantas, cuidar de animais, praticar exercício físico, fazer trabalhos manuais ou participar em tertúlias culturais que proporcionem prazer e boa disposição. Todas estas atividades, tal como o contínuo investimento no aumento de conhecimentos, mantendo a atividade tanto física como intelectual, são essenciais para viver de uma forma saudável esta fase da vida.

Temos um longo caminho para fazer. É, contudo, importante que estes assuntos sejam discutidos.

O desafio atual é pensar em estratégias para favorecer a ideia de viver mais e melhor, proporcionando uma qualidade de vida superior.

Embora não haja um consenso a respeito do conceito de qualidade de vida, há uma concordância considerável entre os investigadores a propósito de três características deste conceito: a subjetividade, que depende das perceções individuais; a multidimensionalidade, que inclui a dimensão física, psicológica e social; e a presença de dimensões positivas e negativas, como por exemplo, a autonomia e a dependência.

 

Intensificar redes de apoio

O ideal será intensificar as redes de apoio compostas por centros de dia, centros de convívio e por organizações de serviços de apoio domiciliário. É aconselhável intensificar-se as redes de vizinhança e fomentar-se o voluntariado que possa visitar e telefonar periodicamente, diminuindo, assim, a possibilidade de isolamento e solidão a que está sujeita esta população. É muito importante considerar o papel das redes sociais na saúde e, sobretudo, considerar os seus efeitos no próprio bem-estar psicológico e na satisfação com a vida.

 

Queremos viver mais, mas queremos essencialmente viver melhor.