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Tecnologia como veículo para envelhecimento autónomo

23/05/2019 |

Soraia Teles, Investigadora no Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde (CINTESIS) Soraia Teles, Investigadora no Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde (CINTESIS)

O envelhecimento populacional é um dos fenómenos sociais significativos do século XXI. Tem implicações para a maioria dos setores da sociedade, designadamente para as estruturas familiares, mercados de trabalho e financeiro, e oferta/procura por bens e serviços de saúde, proteção social, transporte e habitação.

Em 2030, uma em cada seis pessoas no mundo terá mais de 60 anos. As Nações Unidas estimaram que, entre 2015 e 2030, a população com 60 ou mais anos aumente em 56%. No ranking dos países mais envelhecidos, Portugal ocupava o quarto lugar em 2017, projetando-se que receba a medalha de bronze em 2050. Viver mais não significa contudo viver bem. Hoje, os portugueses podem esperar viver em média 20 anos após os 65. Todavia, diz-nos a OCDE, apenas seis desses anos serão vividos sem incapacidade.

O discurso político tem encorajado o envelhecimento na comunidade. Diz-nos a Organização Mundial de Saúde que envelhecer na comunidade tende a beneficiar a saúde, vida social e emocional da pessoa, e reduz a despesa pública com os cuidados. De acordo com a Comissão Europeia, é esse o desejo de 90% das pessoas: envelhecer em casa, com qualidade de vida. A inovação tecnológica pode contribuir para a sua concretização, facilitando a criação de habitações e cidades “amigas” dos cidadãos com idade mais avançada e de todos.

 

Soluções inovadoras ajudam

As tecnologias de assistência à autonomia no domicílio (AAL, na sigla em inglês de “ambient assisted living”) são um exemplo de soluções inovadoras para apoiar a pessoa com idade mais avançada a manter-se ativa, independente e socialmente conectada, e aumentar o custo-eficácia de serviços prestados a esta população. Combinam as novas tecnologias com o ambiente social dos indivíduos e incluem um largo espectro de soluções como casas inteligentes; sensores que medem parâmetros bioquímicos e sinais vitais; robótica que gere a ingestão de alimentos ou medicamentos, entre muitas outras. As soluções AAL são já uma parte importante da “Silver economy”, isto é, das atividades económicas destinadas aos 50+, estimada globalmente em 15 biliões de dólares. Soluções destinadas à prevenção e deteção de incidentes no ambiente doméstico, popularizadas no contexto das casas inteligentes, estão entre as que mais interessam às pessoas com mais idade e cuidadores.

 

Casas inteligentes

As casas inteligentes são equipadas com sensores ambientais e fisiológicos, dispositivos e sistemas de comunicação que assistem quem nelas reside, monitorizam o ambiente doméstico (por exemplo a temperatura ou se os eletrodomésticos estão desligados), os sinais fisiológicos (como a frequência cardíaca) ou atividade (movimentos, por ex) do morador. A análise de parâmetros como estes permite identificar alterações em rotinas, ou prevenir e detetar emergências como quedas ou incidentes domésticos.

Não é invulgar que a institucionalização da pessoa em idade mais avançada seja motivada pelo medo da ocorrência de incidentes em casa. A monitorização remota com soluções AAL pode contribuir para a permanência da pessoa no seu espaço.

Os sistemas das casas inteligentes são cada vez mais “amigos” do utilizador: versáteis, discretos e não-invasivos. Contudo, existe ainda um hiato entre o investimento nas casas inteligentes e nas soluções AAL e a adesão às mesmas pelo utilizador, relacionada com a facilidade de utilização e os custos. Ainda assim, com uma receita global estimada em 58,68 mil milhões de dólares, a aceitação das casas inteligentes tem crescido pelo que, em conjunto com outras soluções AAL, podem vir a ser instrumentais para o envelhecimento bem-sucedido.