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MANEL CARRAGETA Disponibilidade para a vida

18/04/2019 |

Além dos cuidados preventivos, Manuel Carrageta realça a importância do otimismo Além dos cuidados preventivos, Manuel Carrageta realça a importância do otimismo

Entrevista a Manuel Carrageta, presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia

Paixão pela vida, pelas relações sociais, pela ajuda aos doentes, pelos mais velhos, pela cardiologia, pela natureza. O que não faltam são razões para, aos 77 anos, Manuel Carrageta, presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia, continuar “agarrado” a uma vida bastante ativa. “Continuo com muita energia. Talvez por gostar muito do que faço. Gosto de ensinar, gosto de apoiar os doentes. Aliás, procuro, sempre que possível, atender as chamadas aos doentes que me ligam [como tinha acabado de acontecer durante a nossa entrevista]. Não tenho aquela pontualidade britânica, é um defeito, mas compenso com uma grande disponibilidade para os meus pacientes”, conta.

Manuel Carrageta nasceu em Évora e cresceu perto do campo e da agricultura. “Em criança vivia no campo, da aventura da pesca e da caça, do fascínio pelos grandes horizontes que temos no Alentejo”. Daí ficou, até hoje, uma grande paixão pelas árvores, particularmente pelas árvores de fruto e uma forte ligação à terra e aos animais.

O interesse por ser médico surgiu cedo. Por volta dos nove anos, queria ser médico da Marinha. Apesar de também apreciar a economia, o apelo da medicina foi mais forte. Sempre teve o gosto por ajudar os outros e a medicina era a profissão mais óbvia nessa perspetiva. Curiosamente, acabou por ir para a Marinha. Integrou, como médico, uma unidade de fuzileiros na guerra colonial, ficando pouco mais de dois anos em Angola, “sobretudo numa zona relativamente pacífica, do Leste de Angola, onde se dedicou a prestar apoio médico e social à população nativa”.

Em relação à especialidade médica, Manuel Carrageta ainda mostrou interesse por psiquiatria, mas o coração “bateu” mais forte pela cardiologia.

Hábitos saudáveis são o segredo

Se voltasse atrás, o cardiologista pouco ou nada mudaria. “Continuaria na cardiologia, continuaria a gostar de árvores, de animais, em particular de cães, continuaria a gostar de viajar”. Talvez tivesse feito “uma maior parte da formação lá fora". O médico fez, com efeito, a formação praticamente toda em Portugal, apenas com períodos de alguns meses na Alemanha, Reino Unidos e Estados Unidos.

Manuel Carrageta teve vários convites para ficar a trabalhar fora de Portugal, mas “o apego ao nosso país e às nossas gentes, comida e mar, a juntar a razões familiares”, fez com que preferisse trabalhar em solo luso.

A dieta, o exercício físico regular e a atividade intelectual são aspetos que o ajudaram a manter a sua qualidade de vida. “A dieta mediterrânica até tem, para além de ser saudável, a qualidade de ser muito saborosa. Eu gosto mesmo desta comida. A atividade física regular também é importante, a marcha, a natação, a ida ao ginásio trabalhar os músculos duas vezes por semana.”

O presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia explica que em idade jovem a atividade física aeróbica, como andar ou nadar, é suficiente para manter a saúde cardiovascular, mas, mais tarde, há o fenómeno da sarcopenia, que é a atrofia muscular, metade da qual se deve ao sedentarismo. “O apogeu funcional é atingido sensivelmente aos 35 anos e, a partir daí, começa a haver uma pequena perda da massa muscular. Esse plano inclinado é tanto mais rápido quanto mais sedentários formos. Para combater isso, temos fazer exercícios de força”. Salienta ainda a importância do ginásio, de treinar o equilíbrio, dado que, com o avançar da idade, se perde o equilíbrio, o que leva “a mais quedas” e com menos massa muscular, além da perda do cálcio ósseo que existe, “as fraturas ocorrem com mais facilidade”.

Manuel Carrageta cita um estudo, publicado no “New York Times”, feito com ratinhos. “Os cérebros dos que tinham movimento tinham os neurónios ativos e com conexões. Pelo contrário, os cérebros dos ratinhos que não se movimentaram, estavam como mortos”.

Lado emocional do coração

Apesar da grande atividade que mantém, Manuel Carrageta valoriza, os tempos livres. Gosta de ouvir música, ir ao cinema e de viajar, sempre que possível com atividade junto à natureza.

O lado emocional do coração, isto é do amor, da família e dos amigos, também é importante ser cuidado nesse processo. “Há uma ligação entre a mente e o coração. Nós podemos ter um grupo de pessoas doentes. Distribuímos a metade mais otimista para um lado e a metade mais pessimista para o outro. Tratamos ambos os grupos da mesma forma. Os pessimistas têm mais complicações. Portanto, a parte psicológica é fundamental”.

Outro aspeto destacado pelo clínico é a atitude das pessoas. “A agressividade vira-se contra nós. Quando uma pessoa ajuda outra, desenvolve trabalho social, quem beneficia mais é o próprio. As pessoas muito agressivas tendem a viver menos tempo. O perdão faz bem”.

A melhor forma de preparar a fase da reforma é, segundo a nossa fonte, reduzir a atividade, mas não parar completamente, procurando diversificar os interesses. “Ter o seu hobby e continuar a trabalhar, manter as relações sociais e, até ter animais domésticos – as pessoas vivem mais tempo – porque os afetos fazem falta”.

O contacto com as gerações mais novas também é algo a ter em conta para um bom envelhecimento. “A integeracionalidade é muito importante. Hoje os jovens têm muita qualidade, estão melhor preparados. Na área que conheço melhor, a dos médicos, vejo muita qualidade, mais do que no meu tempo. Tenho uma visão divergente de muitos, que dizem ‘antigamente é que era bom’”.

Projetos ainda germinam

Com 77 anos e uma vida pessoal e profissional cheia, Manuel Carrageta mantém, ainda assim, projetos por realizar. Tem uma quinta no Alentejo que está a desenvolver e onde quer ver crescer os vários tipos de árvores, particularmente de fruta mediterrânica, plantadas de forma a protegerem-se mutuamente das intempéries do clima, como o sol violento do verão e o frio do inverno. “Tenho alguns conhecimentos da vida agrícola e este é um projeto que me empolga”.

Apesar deste interesse, não tem, ainda, planos para reformar-se da cardiologia. Está também muito empenhado em promover o ensino da medicina dos escalões etários mais avançados, que são hoje a maioria dos doentes e que exigem cuidados com particularidades muito específicas, nem sempre reconhecidas por todos os médicos. Para isso adquiriu competência em geriatria, sendo hoje presidente da Sociedade Portuguesa de Geriatria e Gerontologia.

 

Dez mandamentos para o envelhecimento (cardíaco e não só) saudável

1.       Atividade física regular

2.       Alimentação saudável e consumo moderado de álcool

3.       Não fumar

4.       Controlar a pressão arterial

5.       Controlar o colesterol

6.       Fazer as vacinas da gripe e da pneumonia

7.       Apanhar algum sol (20 minutos diários)

8.       Atividades intelectuais e culturais

9.       Ser otimista

10.     Manter relações sociais (evitar o isolamento)