Entrevistas | Amortalidade - Progressos da ciência na reversão do envelhecimento

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Amortalidade - Progressos da ciência na reversão do envelhecimento

11/08/2020 | Maria do Carmo Fonseca

Longevidade e a Amortalidade - Foto: Unsplash Longevidade e a Amortalidade - Foto: Unsplash

Maria do Carmo Fonseca é professora catedrática na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e presidente do Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes, Prémio Pessoa, em 2010, e fala-nos do conceito de ‘amortalidade’, ou seja, a possibilidade de vivermos mais anos sem envelhecer.

 

Impulso Positivo: A ideia de vida eterna sempre acompanhou a existência humana.

E de alguma forma muitos conseguiram imortalizar os seus nomes, os seus trabalhos com grandes obras no mundo das artes ou pela sua dedicação às causas sociais.

Contudo, ninguém alcançou a imortalidade do seu corpo nem irá conseguir.

Algo diferente e para o qual hoje se trabalha e já com resultados que o comprovam é a ‘amortalidade’.

Quer explicar-nos o que significa este conceito?

Maria do Carmo Fonseca:

“Amortalidade” é um conceito que pretende traduzir a nossa nova relação com o envelhecimento.

A palavra foi criada pela escritora e editora da revista “TIME” Catherine Mayer no livro publicado em 2011 intitulado “Amortality: the pleasures and perils of living agelessly”.

 

O que caracteriza um amortal é viver da mesma forma, ao mesmo ritmo, com o mesmo estilo, desde jovem adulto até à morte.

 

Impulso Positivo: O que caracteriza um ‘amortal’?

Maria do Carmo Fonseca:

Um amortal não sente a sua vida limitada pelo passar dos anos.

Aos 70 anos os amortais continuam a:

- lançar ideias para novas empresas ou projetos,

- dar concertos,

- realizar filmes,

- representar,

- correr maratonas,

- casar e divorciar-se.

Ou seja, estas pessoas sentem-se imunes ao envelhecimento.

O que caracteriza um amortal é viver da mesma forma, ao mesmo ritmo, com o mesmo estilo, desde jovem adulto até à morte.

 

O que importa não é o número de anos desde o nascimento, mas sim como a pessoa se perceciona a si própria, e o que quer e é capaz de fazer.

 

Impulso Positivo: De que forma esta mudança da nossa relação com o envelhecimento, vai alterar as nossas vidas?

Maria do Carmo Fonseca:

Na nossa sociedade dominada pela influência de figuras públicas e uma amálgama de valores culturais globalizados, a presença cada vez mais visível dos amortais está a mudar a forma como os jovens socializam com os mais velhos e começam a idealizar o seu próprio envelhecimento.

Os amortais misturam-se com os adolescentes em festivais de música e aventuras desportivas, criando um ambiente em que as idades se confundem.

O que importa não é o número de anos desde o nascimento, mas sim como a pessoa se perceciona a si própria, e o que quer e é capaz de fazer.

 

Impulso Positivo: Os cientistas já conseguem, em laboratório, reverter as características de células velhas tornando-as células jovens. A que distância estamos de conseguir reverter o envelhecimento celular no corpo humano?

Maria do Carmo Fonseca:

É excelente ter 60 ou 70 anos e ainda nos sentirmos jovens, mas será possível continuar jovem aos 80 ou 90 anos?

Esta é a grande questão que desafia os atuais limites da Ciência.

Pessoalmente, partilho a ideia que durante os próximos 100 anos vamos efetivamente ser capazes de atrasar o envelhecimento do corpo humano.

 

Impulso Positivo: Mas falemos dos nossos comportamentos, em especial das nossas escolhas nutricionais, da opção pela prática de exercício físico. Nunca será demais relembrar o quanto contribuem para o prolongamento da vida.

Maria do Carmo Fonseca:

Sem dúvida!

A forma mais simples e eficaz de aumentar a longevidade consiste em:

- comer pouco

- praticar exercício físico com regularidade.

Já foram feitas inúmeras experiências com animais e os resultados são muito consistentes:

- a restrição calórica (isto é, uma alimentação com poucas calorias, mantendo todos os nutrientes essências) é suficiente para atrasar o aparecimento de doenças relacionadas com o envelhecimento e nalguns animais aumentava o tempo de vida em cerca de 40%.

 

Importa antecipar os problemas resultantes do aumento do tempo de vida das pessoas de forma a procurar e testar novas soluções.

 

Impulso Positivo: Ao contrário do que pode ter sido o entendimento de muitos, o prolongamento da vida humana, desde que com qualidade, ou seja, de uma forma saudável e ativa, não é um problema, mas uma solução para uma sociedade que tem cada vez menos jovens. Não é assim?

Maria do Carmo Fonseca:

Totalmente de acordo.

Os amortais, ao manter uma vida plena de compromissos e desafios, continuam a dar o seu contributo como membros ativos da sociedade.

Importa, no entanto, antecipar os problemas resultantes do aumento do tempo de vida das pessoas de forma a procurar e testar novas soluções.

Os problemas são múltiplos e complexos, desde o acesso aos avanços tecnológicos que permitem prolongar a vida, à manutenção dos sistemas que garantem a reforma e cuidados de saúde.

Mas o maior de todos os problemas futuros será a sustentabilidade da vida humana no planeta Terra.

Mesmo assumindo uma estabilização de número total de seres humanos, vai ser essencial reduzir o impacto negativo que o nosso estilo atual de vida tem no ambiente.

Tal implica o desenvolvimento de modelos económicos focados na procura de novas formas de produção de energia e de alimentos, novas soluções para a mobilidade de pessoas e coisas, e estratégias mais eficazes de reciclagem.