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Em busca do tempo perdido

22/07/2020 | Mário Barbosa

Medicina Regenerativa e a busca pelo tempo perdido - Foto: Unsplash Medicina Regenerativa e a busca pelo tempo perdido - Foto: Unsplash

Impulso Positivo: Estamos a viver mais anos, mas será possível viver mais anos e com saúde por mais tempo?

Mário Barbosa: Um estado pleno de saúde é mais um objetivo do que uma realidade do dia-a-dia, se considerarmos que a saúde é um estado de equilíbrio que envolve o próprio e o ambiente em que se insere.

Ou seja, o bem-estar de um indivíduo resulta de um equilíbrio físico e emocional, que é fortemente condicionado por fatores externos, os quais podemos englobar num conceito alargado de saúde.

Nos últimos dez anos tem-se afirmado este conceito holístico da saúde, através daquilo a que se convencionou chamar One Health (Uma Saúde), que liga, de forma íntima,

  • a saúde humana,
  • a saúde animal e
  • a saúde ambiental.

Estamos a viver um período em que este conceito de saúde faz cada vez mais sentido.

Podemos não nos sentir doentes, mas o nosso equilíbrio físico e emocional pode estar fortemente afetado.

A resposta à sua pergunta é um sim, mas condicionado pela nossa capacidade de considerarmos que saúde não é o mesmo que ausência de doença. 

 

(...) “lines on your face don’t bother me”.

 

Impulso Positivo: Desde há vários anos que há uma certa expectativa da sociedade em relação às potencialidades da medicina regenerativa. Qual o papel da medicina regenerativa na melhoria da qualidade de vida?

 

Mário Barbosa: É preciso notar que a regeneração biológica é um processo que ocorre em nós todos os dias, e do qual depende a renovação dos tecidos e órgãos e a manutenção da sua função.

Estar vivo é regenerar constantemente. O que a medicina regenerativa procura fazer é incentivar os processos biológicos normais de regeneração, quando um tecido ou órgão perde parte da sua função, devido a trauma, doença ou envelhecimento.

À medida que envelhecemos vamos perdendo essa capacidade.

Na verdade, isso sucede progressivamente desde que nascemos. Se estar vivo é regenerar constantemente, também é envelhecer constantemente.

O envelhecimento não é uma doença, embora a probabilidade de ocorrência de doenças aumente com a idade.

Na minha opinião, o grande papel que a medicina regenerativa deve guardar para si é o da melhoria da qualidade de vida, deixando de lado as visões ficcionais de devolução da juventude.

O tempo é uma das grandes invenções da humanidade, mas a perceção que dele temos depende muito de fatores emocionais.

A aceitação do envelhecimento como um processo normal - podendo ser enriquecedor - é um desafio pelo qual muitas pessoas passam. Vale a pena recordar uma canção da Norah Jones que diz “lines on your face don’t bother me”.

 

Impulso Positivo: Mas a regeneração não para o relógio, certo?

Mário Barbosa: Absolutamente correto.

Não para nem o relógio físico nem o relógio biológico. Não acho muita piada à expressão “Você está na mesma”.

É uma frase simpática que nos faz sentir que o relógio parou aos olhos do outro, embora por nós possam ter passado muitos e difíceis anos.

Claramente, nós e o outro temos noções diferentes do tempo. A nossa própria perceção do tempo é muito variável.

Dez anos passados parecem mais curtos do que dez anos futuros. Por muitos anos que vivamos, fica sempre a sensação de que ainda não nos completamos ou realizamos plenamente.

Por muitos avanços que a medicina regenerativa venha a ter, não mudará esta perceção de insatisfação, a não ser que chegue ao ponto de mudar a nossa forma de encarar a vida....

 

Toda a área de regeneração do sistema nervoso central é um enorme desafio para a medicina regenerativa.

 

Impulso Positivo: Quais os avanços da medicina regenerativa no tratamento de doenças como a Alzheimer e o Parkinson?

Mário Barbosa: Toda a área de regeneração do sistema nervoso central é um enorme desafio para a medicina regenerativa.

O cérebro é ainda mal conhecido, apesar do grande esforço para desvendar os mecanismos que estão por trás do seu funcionamento e das doenças que lhe estão associadas, como a Alzheimer e o Parkinson.

A compreensão desses mecanismos é essencial para se poderem desenhar terapias que combatam estas doenças de forma eficaz.

Ainda estamos numa fase muito preliminar da investigação para se poder antecipar o papel que a medicina regenerativa pode ter nesta área.  

 

A nossa forma de lidar com a saúde é um pouco estranha, sendo muito condicionada pela forma como encaramos a saúde.

 

Impulso Positivo: Na relação entre a alimentação e a regeneração biológica e natural, quais os hábitos alimentares com maior contributo comprovado?

Mário Barbosa: Infelizmente, tem havido pouca investigação sobre o efeito da alimentação e do exercício físico nos processos regenerativos.

A nossa forma de lidar com a saúde é um pouco estranha, sendo muito condicionada pela forma como encaramos a saúde. Estamos doentes e tomamos um medicamento, como se isso não tivesse contra-indicações e algumas doenças não fossem o resultado duma acumulação de hábitos pouco saudáveis, durante anos seguidos.

Mesmo algumas abordagens alimentares são baseadas no efeito terapêutico de alguns alimentos, acentuando a nossa forma já muito farmacológica de encarar a saúde.

 

Impulso Positivo: Em complemento, e mantendo esta relação com a regeneração biológica e natural, qual o impacto do nosso estilo de vida, designadamente, a opção pela prática de exercício físico e a qualidade do sono?

Mário Barbosa: Creio que, em parte, já respondi a esta pergunta acima.

O problema que se coloca, em termos de metodologias de investigação, é a enorme dificuldade que existe em analisar estes fatores de forma integrada.

Pelas próprias limitações do método científico, somos levados a isolar variáveis, para facilitar a sua análise.

Porém, sabemos das limitações do método e temos noção de que a realidade é bem mais complexa.

A alteração forçada de ritmos biológicos ancestrais, determinados pelos ciclos dos dias e das noites e da sua variação ao longo do ano, coloca o organismo perante condições de stress.

A cronometragem das nossas atividades ao minuto, quando não ao segundo, é uma alteração significativa muito recente a nível da nossa espécie.

Não surpreende que cause perturbações a nível da qualidade do sono, assim como de outras funções reguladas pelos nossos relógios biológicos.