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Vamos superar esta situação, se mantivermos a atenção ao outro

23/11/2020 | Sofia Alçada

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Impulso Positivo: A pandemia colocou muitas famílias em situação de grande fragilidade económica. Há mais pessoas a passar fome em Portugal?

Isabel Jonet:

Há mais pessoas com graves carências alimentares em Portugal.

Não acho que se deva falar de fome em Portugal embora haja bolsas graves de pobreza, de pobreza severa. Não necessariamente fome como há, por exemplo, em África.

Apesar de tudo, em Portugal há uma rede de solidariedade social extraordinária, e mesmo por vezes, com alguma demora, há apoios públicos, para pessoas sem qualquer tipo de rendimentos.

Nós temos em Portugal uma pobreza estrutural que é muito grave. Cerca de 19,3% dos portugueses são pobres. Há em Portugal 1 milhão de portugueses que vive com menos de 250€ por mês e 2 milhões que vivem com um rendimento inferior a 450€.

Portanto, o que temos é uma pobreza estrutural.

O que a pandemia trouxe foi uma coisa muito estranha. Com a pandemia, de um momento para o outro, houve muitas pessoas que perderam o seu emprego ou a capacidade de poder trabalhar. Os profissionais independentes, eram pessoas que dependiam exclusivamente do trabalho para poder viver e que deixaram de ter onde trabalhar.

Os ginásios fecharam, não houve concertos, os cabeleireiros, as massagistas, os dentistas, condutores de Uber ou táxi deixaram de poder trabalhar. Os feirantes que ainda hoje não podem exercer a sua atividade... Não há turismo e, portanto, não há hóspedes.

Assistiu-se a que, pessoas que tinham a vida equilibrada, passaram a estar numa severa pobreza conjuntural. Ficaram sem qualquer rendimento. Portanto, esta crise foi muito mais impactante do que qualquer outra, pelo inesperado. Falava-se de crise sanitária e de saúde, mas não de crise social. E o problema é que esta crise vai demorar mais a ser ultrapassada. Vamos precisar de tempo até que a máquina da economia volte a funcionar.

Na minha opinião, há que acautelar a crise social, para evitar o desespero. A maior parte das pessoas que ficaram nesta situação são pessoas mais novas e com filhos. São pessoas que estavam habituadas a ter uma vida boa, sem dificuldades. São pessoas que tinham no seu horizonte uma boa perspetiva de vida e, de repente, ficaram sem nada. E pior, sem esperança no futuro. Estão em modo de sobrevivência.

"Com a pandemia, de um momento para o outro, houve muitas pessoas que perderam o seu emprego ou a capacidade de poder trabalhar."

 

Impulso Positivo: No meio da crise muitas vezes, as pessoas juntam-se e envolvem-se conseguindo fazer parte da solução. Foi o que aconteceu com a Rede de Emergência Alimentar?

Isabel Jonet:

Rede de Emergência Alimentar foi lançada logo a 19 de Março.

A rede foi estruturada pela Entrajuda (entidade ligada ao Banco Alimentar e criada para soluções de organização e de gestão). Foi incrível o processo de elaboração da Rede. Houve muitos voluntários que apareceram. Tínhamos cerca de 72 pessoas todas elas voluntárias com as competências necessárias à execução do que era preciso. O que foi incrível e permitiu ter uma resposta certa e rápida.

Foi assim criada uma solução informática que permitiu o registo dos pedidos online para garantir o acompanhamento e o conhecimento da realidade destas pessoas. Cada vez que alguma família precisa de apoio, tem que preencher este formulário ficando o registo.

Este processo fez com que fosse permitido fornecer dados sobre a incidência da pobreza no Covid para entidades como o Banco Portugal ou, por exemplo, para Eurekathon.

 

Impulso Positivo: Consegue então, mensurar o aumento da procura pelo apoio do Banco Alimentar. Qual é então a realidade?

Isabel Jonet:

Os Bancos Alimentares apoiavam 380 mil pessoas em Janeiro. Estamos a falar dos cerca de 21 Bancos Alimentares em todo o território português, incluindo Açores e Madeira, e de uma rede de cerca de 2400 instituições que nos apoiam em regime de parceria.

Hoje, temos mais 60 mil. Recebemos cerca de 50 pedidos de ajuda por dia. Só tivemos um abrandamento durante o período de verão.

Face ao aumento destes pedidos e ao fecho de grande parte das instituições por terem pessoas mais velhas a dar apoio ou por estarem sediadas nas igrejas, que fecharam por ordem do Governo, tivemos de alargar a rede, recorrendo as Juntas de Freguesias e as Câmaras Municipais. Entidades que nos assegurassem o apoio, para que nada faltasse as pessoas com necessidades. E pouco a pouco, as instituições foram abrindo, a partir de Maio.

Hoje, como já referi, temos cerca de 50 pedidos diários de apoio. O que era impensável até Janeiro. Não tínhamos estes valores por mês. E o que me impressiona mais é a falta de uma luz...

"Recebemos cerca de 50 pedidos de ajuda por dia."

 

Impulso Positivo: E o que, na sua opinião, podemos fazer?

Isabel Jonet:

Dar esperança. É muito importante dar esperança.

Outra coisa que fizemos com a Entreajuda foi dar computadores. Com as escolas a fecharem havia necessidade de dotar os alunos de computadores para que pudessem acompanhar as aulas. Tivemos várias empresas e um doador individual (que foi espetacular) que nos ajudou a conseguir fazer chegar os computadores, colmatando esta necessidade.

Apesar disto, acredito que seja um ano onde a exclusão social se irá agravar de uma forma enorme.  As pessoas que não têm recursos. Não puderam dar aos filhos a possibilidade de acompanhar as aulas condignamente. Primeiro porque não tinham nem equipamento informático nem plano de dados. E segundo, porque sendo de famílias menos qualificadas, não puderam ajudar os filhos. Não sabiam como explicar aos filhos.

Apesar das escolas já terem aberto, há ainda muitos jovens que estão com grandes barreiras e dificuldades quanto à escolaridade, o que na minha opinião, poderá provocar grandes diferenças e desigualdades.

"É muito importante dar esperança."

 

Impulso Positivo: A sociedade já percebeu a urgência de apoiar esta emergência alimentar e social? Os portugueses e as empresas estão mais mobilizados, mais contributivos para esta causa?

Isabel Jonet:

Os portugueses são extraordinários. Logo que são convidados participam, envolvendo-se. Mesmo, por vezes, tendo eles próprios necessidades. E o Banco Alimentar é um exemplo disso.

Portanto, em Maio e Junho tivemos muitos donativos no âmbito da rede de emergência alimentar. Não foi possível fazer uma recolha nos locais e, portanto, fez-se uma campanha de compra de alimentos com os donativos entregues, nomeadamente, com uma ação liderada pelo BPI que permitiu recolher muitos donativos que foram todos convertidos em alimentos.

Houve muitas empresas que deram produtos. Outras deram donativos à rede de emergência alimentar. Houve inclusive várias entidades estrangeiras e fundações que procuravam uma resposta para ajudar nesta fase do Covid-19. Como havia poucas entidades com respostas estruturadas, nós pudemos usufruir destes apoios. Com uma marca diferente (rede de emergência alimentar), mas muito transparente na sua execução.

O que provoca alguma frustração e a persistência da questão: “Onde é que eu falhei?”

 

Impulso Positivo: Quem chega ao Banco Alimentar acredita que esta é uma situação transitória ou assiste-se uma grande falta de esperança?

Isabel Jonet:

As pessoas que estão a vir ao Banco Alimentar dizem que elas próprias já ajudaram e agora com alguma tristeza, têm que recorrer a esta ajuda. Têm que lidar com um sentimento que as ultrapassa, questionando-se: “onde é que eu falhei”?

O que é certo, é que não há falhanço nenhum. Ou se quisermos, há um falhanço global, generalizado. Nós estávamos num país florescente. Com turismo. Estávamos na moda, Alojamentos locais por todo o lado. Havia muitas pessoas mais velhas que conseguiam completar as suas reformas desta forma. Havia emprego.

Não há, portanto, falhanço, mas sim uma alteração radical da vida que tínhamos. E esta alteração foi mal acomodada. O que provoca alguma frustração e a persistência da questão

“Onde é que eu falhei?”

 

Impulso Positivo: Nesta crise, que é de saúde pública, mas que é também social, o Banco Alimentar tem contado com o apoio das empresas?  

Isabel Jonet:  

Do lado das empresas também temos tido muito apoio.

Muitas das empresas que fizeram donativos envolveram os colaboradores, desafiando-os a participar na campanha online do Banco Alimentar.

Um dos exemplos foi a campanha “por cada euro doado pelos colaboradores, a empresa duplicava o valor”.

Nós se trabalharmos juntos, com parcerias, seguramente que teremos um resultado que é melhor.

 

Impulso Positivo: Na sua opinião, e porque também é economista, considera que esta crise económica e social se irá prolongar muito para além da crise de saúde pública? Ou considera que a retoma económica e a diminuição do desemprego será sentida num curto espaço de tempo?

Isabel Jonet:

Penso que vamos ter uns anos difíceis pela frente. Até porque esta pandemia vem mudar o mundo. Não é só impacto económico, social ou sanitário, mas sim uma alteração radical do funcionamento das instituições, das pessoas e da dinâmica das famílias.

Há uma alteração radical hoje, pela velocidade com que a internet vem mudar a relação das pessoas. Hoje damos quase como aceite que se marque, por exemplo, uma assembleia geral por Zoom. Que os netos, para ver os avós, o façam por Zoom. O que não é uma realidade humana. Provavelmente, esta é a realidade possível nesta altura, mas receio que estas novas rotinas, sejam mantidas, farão mudar, em muito, o mundo.

Essa consequência que decorre desta pandemia vai alterar profundamente o emprego havendo muita gente que não terá lugar no mercado de trabalho.

Exemplo disso é a diferença nas viagens de trabalho e, portanto, de ligação das pessoas. Há uma maior exigência com os horários, pois as reuniões por zoom não se compadecem com atrasos. E as relações humanas ficam mais ténues. O contacto necessário e muitas vezes informal perde-se com o digital.

Esta sociedade pode desumanizar-se. E este é o meu receio.

 Já dizia Séneca no século I: Não te esqueças que és apenas um homem.

Ser um homem significa que temos que agir como seres humanos. Há alguns hábitos humanos que são determinantes para socializar enquanto homens, e que se estão a perder. Nomeadamente como famílias. Nós próprios acabamos pactuando com esta nova forma de viver que altera a realidade. E que muitas vezes é usada como uma desculpa para não ir visitar por exemplo os avós. Ou para estarmos em família mas cada um com o seu dispositivo móvel sem conversar e interagir.

"Esta pandemia tem que suscitar uma reflexão pessoal. E assim, percebermos onde estamos e para onde queremos ir."

 

Impulso Positivo: Na sua opinião, num futuro pós-pandemia em que sociedade viveremos? Conquistaremos uma sociedade mais atenta ao bem-estar do outro?  

Isabel Jonet:  

Espero que sim! Embora, espero que essa atenção não se limite apenas a enviar dinheiro ou emojis a saber se a pessoa passou bem a noite.

Temos que saber cuidar dos outros! Podemos usar os meios digitais sim, mas não nos podemos limitar a estes. É importante o afeto físico. E que espero não se perca.

Esta pandemia tem que suscitar uma reflexão pessoal. E assim, percebermos onde estamos e para onde queremos ir. Trabalhamos muitas vezes ao ritmo de máquinas e os homens não são máquinas.

Não é suportável a longo prazo…

 

Impulso Positivo: Como gostamos sempre de falar dos aspetos positivos, bem patente no nosso nome (impulso Positivo), há alguma mensagem final que gostasse de deixar aos nossos leitores?

Isabel Jonet:

Sou sempre muito esperançosa e muito otimista.

E Sim, gostava de reforçar que temos que estar juntos. E acreditar que vamos dar a volta a esta situação, se mantivermos a atenção ao outro.

Em Portugal temos muito bons exemplos. Se nos mantivermos coesos não tenho a menor dúvida que vamos conseguir. Se calhar ainda vamos ter que esperar algum tempo. Mas apesar de tudo, os portugueses são sempre um povo muito resiliente e inovador. E nós já vamos vendo hoje o aparecimento de soluções de pequenos negócios que podem vir a animar a economia e que são até soluções que não existiam. Se redimensionarmos a perspetiva do que podemos fazer com os pequenos negócios, se calhar vamos poder dar um grande dinamismo à economia.

Nunca me esqueço de quando se deu a descolonização, e recebemos em Portugal, um milhão de retornados em muito pouco tempo. E muitos deles na altura, abriram pequenos negócios que permitiram ter um sustento para si e para as suas famílias. E é isso que eu acho que vai acontecer. Vamos ter uma dinamização da economia por via de negócios mais locais que podem gerar menos lucro ou menos receita no imediato, mas que poderão aliviar algum peso ao Estado, do número de pessoas que estão inscritas no centro de emprego.

Não tenho a menor dúvida que vão aparecer numerosas soluções e novos negócios. Na minha opinião, era importante que os fundos comunitários fossem entregues, não à construção e às grandes obras, mas sim a criação e dinamização de pequenos negócios que permitam o auto sustento.

...temos que estar juntos. E acreditar que vamos dar a volta a esta situação, se mantivermos a atenção ao outro.

 

Impulso Positivo: Está para breve o peditório do Banco alimentar. Quer aproveitar para divulgar?

Isabel Jonet:

Peditório do Banco Alimentar decorrerá dos dias 26 Novembro a 13 Dezembro e poderão fazê-lo através do endereço Alimentestaideia.pt, e através dos vales dos supermercados.