Jovens para sempre | HELENA REBELO PINTO Senhora do seu destino

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HELENA REBELO PINTO Senhora do seu destino

01/08/2019 | Entrevista a Helena Rebelo Pinto Psicóloga e professora catedrática

“Sou uma mulher de pensamento, mas sou muito uma mulher de ação”, afirma Helena Rebelo Pinto. “Sou uma mulher de pensamento, mas sou muito uma mulher de ação”, afirma Helena Rebelo Pinto.

É psicóloga, professora catedrática e autora de vários livros relacionados com o sono e com a psicologia de família. Com 81 anos bem conservados e uma vida pessoal e profissional plena de realização, Helena Rebelo Pinto está mais do que avalizada para dar conselhos sobre a preparação para um bom envelhecimento. Diz, porém, que, “por ser psicóloga” prefere dar sugestões a conselhos.

A primeira sugestão que deixa é que as pessoas procurem pensar nesse processo, na medida do possível, sendo dono do seu próprio destino. “O pior que pode acontecer às pessoas no processo de envelhecimento é demitirem-se de si próprias”, aponta.

“Se alguma sugestão posso dar às pessoas é que pensem no assunto e encontrem dentro de si e à sua volta oportunidades de se sentirem bem e serem úteis. Isto vem muito de nós. É um tema que tem de ser encarado pelas pessoas”.

Algo importante é “saber balancear” o trabalho com o lazer. “Procuro, ao longo do dia, ter o que chamo de bolsas para respirar. Gosto muito de ler, de ir ao cinema, de ir ao teatro, de ouvir música, de andar a pé. Gosto do campo. Gosto de muitas coisas diferentes, mas de um lazer ativo, não gosto da ‘pasmaceira’”. No presente, o lazer de Helena Rebelo Pinto “tem muito a ver” com a interação familiar. “Tenho sempre a casa aberta”, conta.

A propósito de equilíbrios, a psicóloga realça que o que a faz feliz é a harmonia interior. “Essa harmonia também é importante nos vários papéis que temos. O mundo atual está sempre a discutir o conflito trabalho-família e conseguir harmonizar os diferentes papéis, o que nem sempre é fácil. E para as mulheres mais do que para os homens. Outra harmonia importante é em relação às outras pessoas. Também a harmonização do ponto de vista espiritual é muito importante para mim”.

Licenciada e doutorada em Psicologia, professora catedrática, especialista em sono, coordena o Instituto de Ciências da Família e o mestrado em Ciências da Família da Universidade Católica, em Lisboa. Os desempenhos profissionais de excelência foram causa maior para Helena Rebelo Pinto ter ganho, em 2018, o Prémio Envelhecimento Ativo Dra. Maria Raquel Ribeiro, da Associação Portuguesa de Psicogerontologia.

A docente universitária explica que é a curiosidade, mas também a vertente social que a movem. “Sou uma mulher de pensamento, mas sou também e muito, uma mulher de ação. O espírito científico é fundamental, mas interessa-me sempre aquilo que pode ser aplicado e transformado em qualquer coisa que seja útil. Portanto, a curiosidade, mas também a utilidade são o que me move. Além disso, também me move uma certa gratidão social, no sentido em que as pessoas são alvo de investimentos das suas famílias e do seu país, pelo que acho que, enquanto tivermos energia, temos de extrair de nós aquilo que julgamos ser útil para os outros”.

Interesse tardio pela psicologia

Nascida em Lisboa e com família, pela parte do pai, no baixo Alentejo, Helena Rebelo Pinto recorda uma infância feliz e com a presença de muitos amigos e família alargada, entre a qual a irmã, cinco anos mais nova. “A minha juventude foi passada numa época bastante diferente da atual. Estávamos no antigo regime e a vida dos jovens era bastante normativa. Só fazíamos o que era suposto fazer. Havia menos raparigas na universidade. Porém, fiz ensino básico, secundário e universitário. Não era muito habitual na minha época, mas eu tinha muitos interesses de natureza social”.

Helena Rebelo Pinto conta que os seus pais lhe possibilitaram a realização de várias viagens que despertaram na psicóloga um grande interesse cultural, que ficou até hoje. Salienta ainda que teve “uma juventude muito inspiradora, aberta, estruturada e tranquila”. Conheceu o marido ainda jovem, namoraram bastante tempo e estão casados há 60 anos. Têm três filhos (uma é a escritora Margarida Rebelo Pinto) e sete netos, dois já casados.

Despertou para a psicologia um pouco tarde. “Interrompi o curso de economia [que viria a concluir mais tarde], casei-me, tive três filhos bastantes seguidos e dediquei-me à família. Ao mesmo tempo que estava na faculdade, fiz também um curso de francês no Instituto de Francês em Portugal. Durante alguns anos, dei explicações e entusiasmei-me muito pela educação e pelos problemas das crianças e dos adolescentes”.

Estávamos nos anos 60 e o interesse pela temática foi amadurecendo. Quando, em 1975, o curso de psicologia abriu na Universidade de Lisboa, Helena Rebelo Pinto candidatou-se e entrou. “A curiosidade foi sempre o que me inspirou. Gosto muito de saber coisas. Gosto imenso de saber coisas do aspeto humano”.

A paixão pela psicologia foi tal que, depois da licenciatura, fez o doutoramento na área do desenvolvimento cognitivo. Ficou a dar aulas na Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, onde fez toda a carreira profissional, vindo, mais tarde, a acumular com a Universidade Católica, à qual continua, hoje, ligada.

Foi “através do cruzamento de muitas linhas” que a investigadora chegou ao estudo do sono. “Sou amiga de infância da professora Teresa Paiva, que é a grande especialista do sono em Portugal. Ela dizia-me muitas vezes que deveria trabalhar com ela, porque muitas vezes a melhoria do sono passa pela mudança de hábitos e que eu a poderia auxiliar nisso”. No presente, Helena Rebelo Pinto, trabalha também com Teresa Paiva e especializou-se no tratamento da insónia e na prevenção e da educação do sono.

Livro sobre envelhecimento é projeto

Todas estas tarefas profissionais e pessoais fazem de Helena Rebelo Pinto uma mulher plena, com uma vida de equilíbrios e harmonias, tanto na vida pessoal como profissional.

A entrevistada ainda tem projetos por concretizar e um dos mais marcantes é um livro sobre o envelhecimento. Terá uma abordagem multidisciplinar e congregará diversos especialistas. “Tal como no livro que já escrevi sobre a família, também aqui a ideia é ter um pensamento multidisciplinar sobre o envelhecimento. A grande questão sobre a ciência é a compartimentação. Os médicos pensam uma coisa, os advogados outra, os teólogos outra, etc. Faz falta às vezes uma obra agregadora. É esse o meu grande projeto para o futuro em termos profissionais”.

Claro está, porém, que a nossa vida não é só a componente profissional. “Os meus projetos pessoais para o futuro são, sem dúvida, interagir com a minha família, com o meu marido, com os meus filhos e com os bisnetos que um dia virão”.