Sociedade | Tenho 40, 65 ou 80 anos. Esqueça o rótulo da idade

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Tenho 40, 65 ou 80 anos. Esqueça o rótulo da idade

06/06/2020 | Fernanda Cerqueira

A idade não pode definir o valor social de uma pessoa. FOTO UNSPLASH A idade não pode definir o valor social de uma pessoa. FOTO UNSPLASH

Ter 40 anos e estar a iniciar uma carreira numa nova área de negócio, ter 50 e voltar aos bancos da universidade ou ter 60 e abrir um negócio, são realidades cada vez mais frequentes que comprovam que a idade cronológica é apenas um número. Na opinião da professora Maria João Valente Rosa, «o valor do rótulo da idade para definir o valor social de alguém, não faz qualquer sentido».

Contudo, a sociedade parece continuar presa a um relógio da idade que marca a organização do ciclo de vida. Há uma fase de formação que corresponde à idade jovem, uma fase de trabalho, durante a idade ativa, e uma fase de reforma e lazer associada à idade idosa. «Estas fases que estão de algum modo balizadas por idades, e que ao longo do tempo também pouco se têm mexido, aliadas ao aumento da esperança de vida, fazem com que sintamos não tanto que temos mais tempo para viver, mas que temos mais tempo para sermos velhos».

A professora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, que falava durante a Conferência online 'Longevidade: Implicações Sociais', promovida pela Culturgest, em parceria com a Fidelidade, reconheceu ser necessário «repensar a sociedade», a forma como os indivíduos se relacionam com o trabalho, com a aprendizagem, com o descanso e com o lazer, áreas que devem estar presentes ao longo de toda a vida e não segmentadas socialmente em função de barreiras etárias.

 

O envelhecimento é contrário à produtividade?

A professora Maria João Valente Rosa contou que numa pesquisa, realizada pelo Eurobarómetro, colocava-se a seguinte questão: se uma empresa pretender contratar alguém e tiver de escolher entre dois candidatos com idênticas competências e qualificações, qual o critério que, em sua opinião, coloca um dos candidatos em desvantagem?

«O primeiro critério apontado, com 47% das respostas, foi a idade do candidato, ou seja, ser muito velho ou muito jovem». E se este é um resultado que nos preocupa, não podemos deixar de referir que em Portugal a percentagem foi bem superior, com 62%.

Se tentarmos perceber a razão por que continua a idade a ser um fator de discriminação, pensamos na produtividade. Será o envelhecimento contrário à produtividade?  

A resposta é que «não é verdade», afirmou Maria João Valente Rosa. «A Polónia é um país muito menos envelhecido do que a Suécia e, no entanto, a produtividade da Polónia em nada se compara com a produtividade da Suécia. Se compararmos a produtividade da Alemanha com a produtividade de Portugal, é inequívoco que a Alemanha é muito mais produtiva, não obstante serem ambos países muito envelhecidos. Não há uma relação linear entre a percentagem de pessoas mais velhas e a produtividade por hora trabalhada», explicou.

 

Envelhecimento demográfico: tempos de mudança

A discriminação quanto à idade, o ser muito novo ou muito velho para um determinado cargo, é algo que teremos de vencer num muito curto espaço de tempo. A envelhecimento demográfico, o aumento da esperança de vida, a nossa auto-realização e satisfação começam a mudar a sociedade, a forma como olhamos para o envelhecimento e para a vida ativa. 

Nas últimas quatro décadas, Portugal registou uma diminuição da população nas idades mais jovens, isto é, com menos de 25 anos, e um aumento da população nas idades superiores, isto é, a partir dos 25 anos. Uma tendência que «irá acentuar-se nos próximos anos», afirmou Maria João Valente Rosa, notando que «Portugal não é um caso isolado» e que «o mundo, como um todo, está a envelhecer».

O envelhecimento demográfico tem sido acompanhado pelo aumento da esperança de vida. Se «no início do século XIX a esperança de vida era inferior a 40 anos, em qualquer parte do mundo, em 2015 a esperança de vida no mundo situa-se nos 71 anos».

«O envelhecimento da população por ser o reflexo de conquistas da vida sobre a morte deveria ser motivo de orgulho social. Mas não é. Em vez de orgulhosas, as sociedades parecem apreensivas e desconfortáveis com esta evolução demográfica» reconheceu, explicando que «uma das razões para tal são os mitos e os princípios que herdamos, apesar de estarem totalmente desalinhados com a realidade dos factos».

 

As sociedades envelhecidas são sociedades doentes?

«O envelhecimento não está associado a populações mais frágeis do ponto de vista sanitário. Bem pelo contrário. Uma população envelhece, não porque os seus membros fiquem mais doentes, mas por conseguirem vencer muitas doenças, como algumas epidemias ou doenças infeciosas. São os países mais avançados, do ponto de vista médico e sanitário, que apresentam maiores níveis de envelhecimento», sublinhou a professora Maria João Valente Rosa, esclarecendo uma ideia recorrente e completamente errada. 

Outra ideia, frequentemente divulgada, é que a reforma plena é desejada. Mas, não é bem assim. «De acordo com os resultados do Eurobarómetro percebe-se que cerca de 2/3 dos europeus acham muito interessante a combinação do trabalho com a reforma. A percentagem obtida em Portugal foi um pouco mais baixa, 56%, mas mesmo assim a maioria das pessoas é favorável a esta modalidade».

«Combinar a partir da idade adulta, em todas as idades, a formação, o trabalho e as atividades de lazer é a forma de caminharmos para uma sociedade mais equilibrada em que todos contam, independentemente da idade que têm», concluiu. 

 

'Ciclo Longevidade', uma iniciativa da Culturgest

A conferência online 'Longevidade: Implicações Sociais’, decorreu no dia 3 de junho, e integra o 'Ciclo Longevidade', uma iniciativa da Culturgest, em parceria com a Fidelidade. Pode assistir à conferência completa no vídeo abaixo ou no Youtube da Culturgest.

Nesta conferência, além da professora Maria João Valente Rosa, participaram também Ana João Sepúlveda, consultora nas áreas da Economia da Longevidade e do Envelhecimento Sustentado e Presidente da Associação Age Friendly Portugal, Judite Gonçalves, professora na Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa de Economia da Saúde e Estatística e Asghar Zaidi, investigador sénior no Instituto de Envelhecimento Populacional de Oxford e professor de Gerontologia na Universidade Nacional de Seoul (Coreia) e na Escola de Economia e Ciência Politica de Londres.