Saúde e Bem Estar | Uma doença chamada solidão

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Uma doença chamada solidão

11/06/2020 | Fernanda Cerqueira

A solidão afeta prejudicialmente a nossa longevidade. FOTO UNSPLASH A solidão afeta prejudicialmente a nossa longevidade. FOTO UNSPLASH

Embora seja reconhecida como um problema de saúde pública, «a solidão tem recebido menos atenção do que é merecido». Apesar de ser causa de «uma pior saúde e uma maior necessidade de cuidados. De poder levar à mortalidade prematura e, portanto, à redução da longevidade», alerta Judite Gonçalves.

Oradora convidada da conferência online 'Longevidade: Implicações sociais', uma iniciativa da Culturgest, Judite Gonçalves professora na Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa de Economia da Saúde e Estatística, sublinhou o impacto da pandemia Covid-19 no agravamento da solidão. 

 

O que é a solidão?

A solidão «é uma sensação fisiológica. A solidão é como a fome», resumiu Judite Gonçalves, explicando que «quando sentimos fome isso faz-nos prestar atenção a uma necessidade física do nosso corpo. A uma necessidade que é alimentar-se. Quando sentimos solidão isso faz-nos prestar atenção a uma necessidade social. Afinal, somos animais sociais».

A crescente modernização, o distanciamento da terra onde crescemos, das nossas famílias, assim como um cada vez menor número de relações pessoais, menos amigos próximos, e uma maior envolvência pelo trabalho são alguns dos fatores que explicam o agravamento da solidão, sendo hoje «caracteriza como uma epidemia», disse a professora.

«Tal como outros sentimentos a solidão é contagiosa», sendo que «podem também ser atingidos estados de solidão crónica. O que quer dizer que é possível chegar a um ponto em que a solidão se alimenta a si própria», alertou. Acresce que «a solidão afeta qualquer um, independentemente da idade, independentemente de ser rico ou pobre, de ser famoso ou poderoso».

 

A solidão afeta o corpo e afeta a mente

Na opinião de Judite Gonçalves, «o sentimento de solidão está entre a coisas menos saudáveis que podemos sentir ou experimentar. Faz com que envelheçamos mais rápido, enfraquece o nosso sistema imunológico, com que sejamos mais vulneráveis ao cancro e que outras doenças, como por exemplo o Alzheimer, progridam mais rápido. Há estudos que mostram que a solidão é duas vezes mais mortífera do que a obesidade».

 

Quem são os mais vulneráveis à solidão?

A 6ª vaga do inquérito SHARE, um inquérito sobre saúde, envelhecimento e reforma na Europa, e que cobre as populações de 50 e mais anos de vários países, colocava a seguinte questão: «Durante a semana passada, quanto tempo se sentiu solitário?»

Os resultados deste inquérito revelaram que a Grécia, a Itália, a Croácia e Portugal foram os países com os resultados mais preocupantes. Nestes países apenas cerca de 65% dos inquiridos disse 'nunca' ou 'quase nunca' se ter sentido solitário na semana anterior. Inversamente, na Dinamarca cerca de 90% dos inquiridos respondeu que 'nunca' ou 'quase nunca' se sentiu solitário. São resultados que espelham o chamado «gradiente norte-sul da solidão que sugere uma maior prevalência da solidão entre as pessoas mais velhas dos países do sul da Europa», explicou a professora Judite Gonçalves.

«A solidão afeta todas as idades» começou por referir, notando, contudo, que «o que a torna diferente entre os mais velhos é o facto de não estarem sozinhos por sua 'escolha'». Com efeito, muitos de nós podemos estar a trabalhar num país ou numa cidade diferente daquela em que residem a nossa família porque encontramos um trabalho melhor ou porque estamos a estudar ou porque decidimos fazê-lo como uma experiência de enriquecimento pessoal. Esta é, contudo, uma realidade diferente daquela que vive a maioria dos seniores, que estão solitários não por opção, mas por ou se reformaram e perderam, progressivamente, a sua rede de contactos profissionais e pessoais ou porque o parceiro já faleceu.  

Sobre a institucionalização, Judite Gonçalves pedeu atenção dizendo que «não nos enganemos e pensemos que os mais velhos, porque estão em lares e têm a companhia de outros mais ou menos da sua idade estão menos solitários. Isso não é verdade! Afinal, sabemos todos, que a solidão não é o mesmo que estar sozinho».

O tom de alerta estende-se aos cuidadores informais que «estão também mais vulneráveis ao risco de isolamento». Gerir o trabalho, a família e o papel de cuidador deixa muito tempo para cuidar de nós próprios, para termos tempo de tomar um café com um amigo.

 

Como podemos afastar a solidão?

«Há iniciativas próprias e iniciativas da comunidade que podem ajudar a mitigar a solidão», explicou Judite Gonçalves. Sair à rua e falar com outros, mantermo-nos próximos dos amigos e da família. Mas, também familiarizarmo-nos com as tecnologias. Afinal uma simples chamada de telefone ou uma videochamada por Zoom ou por Messenger podem ajudar a aproximar corações mesmo que continuemos fisicamente longe.

Mas, há também um papel muito importante da comunidade no combate à solidão. Promover atividades sociais que envolvam os seus residentes, facilitar o acesso aos transportes públicos e à mobilidade urbana, reforçar a oferta de centros de dia e de apoio domiciliário são medidas muito importantes para que tenhamos condições de nos aproximarmos de uma sociedade que não deixa ninguém para trás, em que ninguém será um solitário.

 

'Ciclo Longevidade', uma iniciativa da Culturgest

A conferência online 'Longevidade: Implicações Sociais’, decorreu no dia 3 de junho, e integra o 'Ciclo Longevidade', uma iniciativa da Culturgest, em parceria com a Fidelidade. Pode assistir à conferência completa no vídeo abaixo ou no Youtube da Culturgest.

Nesta conferência, além da professora Judite Gonçalves, participou também a professora Maria João Valente Rosa, professora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa que, entre outros temas, falou nas enormes perdas que sofremos como sociedade por continuarmos a manter-nos presos ao rótulo da idade. Não deixe de ler 'Tenho 40, 65 ou 80 anos. Esqueça o rótulo da idade'. 

Foram ainda convidados desta conferência Ana João Sepúlveda, consultora nas áreas da Economia da Longevidade e do Envelhecimento Sustentado e Presidente da Associação Age Friendly Portugal, e Asghar Zaidi, investigador sénior no Instituto de Envelhecimento Populacional de Oxford e professor de Gerontologia na Universidade Nacional de Seoul (Coreia) e na Escola de Economia e Ciência Politica de Londres.