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Fazer reset à idade

18/07/2020 | Fernanda Cerqueira

A medicina regenerativa e a longevidade.  FOTO UNSPLASH A medicina regenerativa e a longevidade. FOTO UNSPLASH

Investigador e coordenador na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, o professor Lino Ferreira foi um dos convidados da última conferência do 'Ciclo Longevidade' e trouxe um conjunto de questões que nos ajudam a perceber que caminhos tem percorrido a ciência no que diz respeito ao estudo do envelhecimento.

 

Quando é que envelhecemos?

«Nós sentimos o processo a acontecer nos nossos corpos, mas cronologicamente é difícil percebermos quando é que este processo é iniciado», admite o professor Lino Ferreira, explicando que «as primeiras manifestações acontecerão, eventualmente, por volta dos 30 anos». Com efeito, a partir da terceira década começa a haver uma perda do tecido ósseo, da cartilagem, da massa muscular, um aumento da gordura abdominal… Um conjunto de alterações que «levam a um efeito sistémico, com alterações ao nível hormonal e do sangue e, consequentemente, com impacto nas propriedades mecânicas e estruturais dos tecidos». Esta sequência é o normal processo biológico do envelhecimento que conduz a «uma etapa seguinte, geralmente, marcada pelo aparecimento de doenças crónicas e que culmina em fenómenos de fragilidade e na uma conjugação de vários tipos de doenças».

 

Qual é a nossa capacidade regenerativa à medida que envelhecemos?

Da mesma forma que o processo de envelhecimento «se manifesta de forma diferente de acordo com as pessoas, conforme o seu estilo de vida, a sua genética, as suas condições ambientais», também a capacidade regenerativa será diferente de pessoa para pessoa. «Dependendo do organismo temos capacidades regenerativas diferentes ao longo da vida, assim como os processos de regeneração».

 

Qual é a origem das células nos processos de regeneração?

«As células estaminais medeiam a regeneração de tecidos humanos adultos». Ora «ao envelhecermos esta nossa capacidade de manter as células estaminais robustas, de forma a serem capazes de dar origem a células-filhas com o mesmo programa genético ou de se diferenciarem em novas células necessárias para a regeneração dos tecidos, vai-se perdendo», explica o professor Lino Ferreira. Isto porque as células estaminais também envelhecem «devido a questões de natureza metabólica ou pelo facto de serem expostas a um conjunto de lesões».

Não só como resposta ao envelhecimento, mas também no contexto de doença (substituição de tecidos e órgãos), desde os anos 50 que se explora a possibilidade de transplantar tecidos e órgãos. Não obstante o progresso registado no transplante de células estaminais exógenas, ou seja, células que veem de um dador que não a pessoa que beneficia, «este transplante tem algumas limitações», alerta o professor Lino Ferreira. «Desde logo há uma sobrevivência limitada das células» além dos custos que tornam, por vezes, todo este processo muito complexo.

Têm por isso aparecido outras abordagens alternativas ao transplante de células estaminais exógenas, nomeadamente a modelação endógena de células estaminais. Neste processo «recorremos aos nichos estaminais que existem em cada um de nós e tentamos conferir-lhes novas propriedades». Este processo pode, por exemplo, «permitir atenuar o processo de envelhecimento nesses nichos estaminais ou pode torná-los mais eficazes quando ocorre uma lesão ou uma doença e seja necessária uma resposta rápida. Ainda estão a ser realizados muitos ensaios técnicos a esta abordagem, mas poderá ter um potencial muito grande no futuro», refere.

 

A medicina regenerativa pode ajudar a desacelerar o processo de envelhecimento?

Na opinião do professor Lino Ferreira estamos a caminhar para «uma nova era, em que não seremos tratados das doenças crónicas, propriamente ditas, mas, eventualmente, daquilo que as antecede, ou seja, o processo de envelhecimento». «O envelhecimento é uma das causas mais importantes para o aparecimento destas doenças crónicas» e na era da ‘gerociência’ «os médicos tratarão o envelhecimento antes de tratarem as doenças crónicas, tais como o cancro, a diabetes ou as demências».

Há um conjunto de ações muito importantes que podemos tomar já hoje para abrandar o natural processo de envelhecimento, nomeadamente, a redução calórica. Mas há também um grande trabalho a ser feito em laboratório, em que se investiga o contributo da ação farmacológica na eliminação de algumas células senescentes, atrasando o processo de tumorigenesis e atenuando a deterioração de vários órgãos com o avançar da idade. E no que à medicina regenerativa diz respeito avalia-se o uso de imunoterapias, da edição genética e da reprogramação celular.

 

'Ciclo Longevidade', uma iniciativa da Culturgest

A conferência online 'Longevidade: Regeneração’, decorreu no dia 23 de junho, e integra o 'Ciclo Longevidade', uma iniciativa da Culturgest, em parceria com a Fidelidade. Pode assistir à conferência completa no vídeo abaixo ou no Youtube da Culturgest.

Nesta conferência, além do professor Lino Ferreira, participaram António Jacinto, investigador do Centro de Estudos de Doenças Crónicas (CEDOC) e subdiretor para a Investigação da NOVA Medical School da Universidade NOVA de Lisboa, onde é também docente na área de Medicina Celular e Molecular. Alexandra Marques, uma das fundadoras do grupo de investigação 3B’s da Universidade do Minho, e Mário Barbosa, professor catedrático no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar e anterior diretor do I3S – Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto. A fechar esta conferência esteve Joaquim Sampaio Cabral, professor catedrático, diretor e fundador do Instituto de Bioengenharia e Biociências do Instituto Superior Técnico.

Sobre a participação do professor Mário Barbosa não deixe de ler o nosso artigo 'Ó tempo volta para trás'. Se o seu interesse é pelas enormes potencialidades da medicina regenerativa não perca o artigo da Sílvia Triboni 'O que é a Medicina Regenerativa?' e o resumo da intervenção do professor Joaquim Sampaio Cabral 'Who wants to live forever?'.

No artigo 'O que podemos aprender com um peixe-zebra?' partilhamos a intervenção do professor António Jacinto e contamos-lhe mais sobre o que a ciência tem apreendido com alguns animais e com a sua extraordinária capacidade regenerativa.